Existe um debate constante e talvez interminável sobre Thelema ser uma religião, filosofia ou um estilo de vida (ou tudo isso ou nada disso). No meu ponto de vista, a Thelema certamente tem algo a oferecer tanto na área da religião quanto na filosofia. Este artigo se debruçará sobre como Thelema aborda as divisões clássicas da filosofia incluindo Metafísica (incluindo aqui ontologia, cosmologia, escatologia e teleologia), epistemologia e ética.
Metafísica é essencialmente o estudo da natureza do mundo. Ela é tradicionalmente dividida em ontologia, cosmologia, escatologia e teleologia.



Ontologia: Nada & Dois

Ontologia é o estudo do ser, da existência ou da realidade. A ontologia thelêmica é facilmente expressa pela frase “Nada & Dois”. O mundo é entendido como “Nada” ou “Nulo”, que é algo absolutamente além de qualquer descrição e limite. No Liber Al Vel Legis I: 27 está escrito “Então o sacerdote respondeu e disse à Rainha do Espaço, beijando as suas amáveis sobrancelhas, e o orvalho da sua luz banhando todo o seu corpo com um perfume adocicado de suor: Ó Nuit, contínua do Céu, que seja sempre assim; que os homens não falem de Ti como Uma, mas como Nenhuma; e que eles não falem de ti de modo algum, posto que tu és contínua!” Muitos místicos a(o) chamaram de “Unidade”, mas mesmo este vocativo, alguns argumentam, implica algo como “não-Um”. Crowley escreve em “De Lege Libellum”, “Todas as Coisas, que em Verdade são apenas Uma Coisa, que tem sido chamadas de Nada”. Daí vem uma necessidade de explicar o surgimento de dualidade. Ao invés da “Queda do Homem” ou um aprisionamento da alma na matéria, Thelema explica que a aparência da dualidade da seguinte forma: “Nenhum, sussurrou a luz, exausta e encantadora, das estrelas, e dois. Pois Eu estou dividida pela causa do amor, pela chance de união. Esta é a criação do mundo, que a dor da divisão é como nada e o prazer da dissolução, tudo. (Liber Al I: 28-30). Desta forma, o muito ou o dividido estão numa posição tal que eles podem se tornar um e se unem. A isso é dado mais explicação no Book of Lies cap. 3 onde está escrito, “O Muito é tão adorável para o Um quanto o Um o é para o Muito. Isso é o Amor Destes; criação-parto é a Alegria do Um; coito-dissolução é a Alegria do Muito./ O Todo, assim entrelaçado d’Eles, é a Alegria”.
… ver também “Berashith” por Aleister Crowley, Magick without Tears cap. 5, Book of Lies, caps. 3, 12 e 46.

Cosmologia: Nuit, Hadit, Ra-Hoor-Khuit e as Estrelas
Cosmologia lida com o que o Universo essencialmente é. Pode-se argumentar que em Thelema há diversas cosmologias similares mas intercambiáveis: por exemplo, o Credo da Missa Gnóstica nos dá uma cosmologia rudimentar, a idéia de “Matéria em Movimento” no Novo Comentário (do Capítulo 1, Verso 1) e o entendimento Qabalista no capítulo 0! do Book of Lies. No fim, a cosmologia mais difundida – e a que tem raiz no Livro da Lei – é a (idéia) de Nuit, Hadit e Ra-Hoor-Khuit. Thelema entende Nuit como o Espaço Infinito que é “Céu”, este ocupado por vários Pontos de Vista, ou Hadit. Cada estrela – “todo homem e toda mulher” – está no Corpo do Espaço Infinito e tem Hadit como seu núcleo, que é “o complemento de Nu, minha noiva”, “a chama que arde em todos os corações dos homens, e é o núcleo de todas as estrelas”, assim como “Vida, e a doadora da Vida”. Estes dois fatores juntos criam o Universo como nós conhecemos. “Na esfera Eu sou [Hadit está], em todo lugar o centro, como ela [Nuit], a circunferência, não é encontrada em lugar algum.”. Existem muitas interpretações para Nuit e Hadit – por exemplo, com Nuit sendo a matéria e Hadit o movimento e a interação dos dois sendo o Universo, mas a idéia básica continua sendo a mesma.
…veja também Liber Al vel Legis caps. 1 e 2, Book of Lies caps. 0 e 11, e “Credo” da “Missa Gnóstica”

Escatologia: A destruição do Eu e o alvorecer do Aeon de Hórus
Escatologia discute a ideia de fim dos tempos. Certamente não há o conceito de Julgamento Final na filosofia de Thelema. De certa forma, pode-se ver a realização do Cruzar o Abismo, a destruição da personalidade ou ego, como o fim dos tempos para o “eu” e o despertar do “Eu”. Outra interpretação para a escatologia é a “destruição do mundo pelo fogo” (que também pode ser interpretada no sentido anterior da destruição do eu), que Crowley mostra simbolicamente no Atu XX: Aeon do Tarot. Nesta segunda interpretação, o mundo foi “destruído pelo fogo” com a recepção do Liber Al vel Legis em 1904. Crowley escreve no Livro de Thoth, “A antiga carta era chamada de O Anjo: ou Julgamento Final. Ela representava um Anjo ou Mensageiro soprando uma trombeta, na qual estava anexada uma bandeira carregando o símbolo do Aeon de Osíris (…) A carta, portanto, representava a destruição do mundo pelo Fogo. Isso foi concluído no ano de 1904 da era vulgar, quando o flamejante deus Hórus, tomou o lugar do aéreo deus Osíris no Leste como Hierofante”.
…veja também Livro de Thoth “XX. O Aeon”

Teleologia: Vontade
Teleologia discute o propósito ou a compreensão do desenho do Universo. Em Thelema, a teleologia é claramente da ordem da “Vontade”. Pode-se contrastar a teleologia da Thelema com a Vontade de Vida de Schopenhauer e a Vontade de Poder de Nietzsche, onde Thelema a entende como uma Vontade de Amar. Todas as experiências e eventos são ocorrências de duas coisas se unindo numa terceira. A fórmula necessária para cada estrela é então “amor sob vontade” – encontrar a Vontade e simplesmente fazê-la. Assim como cada estrela sua órbita particular no macrocosmo do espaço Sideral, cada homem e cada mulher tem seu Caminho particular na terra. Como Crowley escreve na introdução de Liber Al vel Legis, “Cada ação ou movimento é um ato de amor, de união com uma ou outra parte de “Nuit”; cada ato deste deverá ser feito “sob Vontade”, escolhida assim para cumprir e não contrariar a verdadeira natureza do ser em questão”.

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