A ENDEMONINHADA DE PLACÊNCIA
(1920 – 1930)







O que este episódio tem de mais peculiar é a fiel reprodução dos diálogos travados entre o exorcista e a possessa: coisa talvez única, e devida à presença de um estenografo que pode transcrever ao vivo as estranhas conversações.

FENOMENOS ESTRANHOS


Numa tarde do mês de Maio de 1920, apresentou-se a um religioso da Igreja do Convento de Santa Maria di Campagna, em Placência, uma senhora que desejava receber a benção no altar da Virgem.
Naquele pedido nada havia de singular, revelava-se apenas um louvável espirito de piedade. Mas as coisas estranhas vieram em seguida, quando a senhora, uma vez recebida à benção, começou a confiar ao frade certos casos bastante inquietantes que haviam acontecido com ela e a contar fatos absolutamente espantosos. Dizia que a certas horas do dia uma força misteriosa superior a sua vontade, se lhe apoderava do corpo e da alma, e que nesses instantes, embora com relutância, dançava a um ritmo de tango durante horas e horas ate cair exausta. Dizia que cantava com voz magnifica baladas, romanzas, área de opera que nunca ouvira ate então; que fazia longuíssimas conferencias em línguas estrangeiras a multidões imaginarias; que cantarolando, predizia em verso o seu fim próximo e o de todas as suas irmãs; que muitas vezes rasgava com os dentes tudo o que apanhava a jeito, e que já tinha assim estragado toda a sua roupa e muita do marido; que em casa, ate o pavor de todos, deslizava como se fosse uma cobra pelo espaldar das cadeiras; e rugia e miava e ululava num tão espantoso crescendo que há certas horas a casa parecia transformada por artes magicas numa jaula de animais ferozes. E via coisas distantes, desconhecidas, como aconteceu numa tarde em que primeiro com admiração e depois rompendo num pranto desfeito pôs a dizer:
— Tantas flores, tantas luzes! Tanta gente no cemitério de Campaneto! Olha lá esta o coveiro a metê-la na sepultura! Pobre noiva, tão bonita e tão nova.
E veio a provar-se, como noutros casos análogos, que a sua visão correspondia a fatos reais.
Contou que às vezes, depois de saltos e voos dignos de um acrobata, feitos de cadeira em cadeira, de mesa em mesa e ate de quarto para quarto, o seu corpo caia inerte e ficava durante dias inteiros inchados e enegrecido, despertando piedade ou repulsa em quem a via. Acrescentou, entre muitas outras coisas, que, quando tinha uma dessas crises, até os seus pais e outra família, embora vivendo longe, recebiam qualquer fluido misterioso que os deixava indispostos.
— Creia padre, a minha vida tornou-se um verdadeiro inferno. Embora tenha dois filhos pequenos, penso constantemente na morte como numa fuga, numa libertação.
O padre Pier Paolo Veronesi ouviu o relato, mas não ficou excessivamente impressionado. O seu cargo de capelão do manicômio de Placência, já o tinha preparado para muitas surpresas. Nada mais natural, portanto, que lhe ocorresse tratar-se de um fenômeno de histerismo ou de qualquer coisa do mesmo gênero. Perguntou:
— Esses fatos tem tido testemunhas?
— Sim respondeu à senhora. — Muitas pessoas podem comprava-los.
— E tem vindo a suceder-se desde há algum tempo?
— Há sete anos.
— E nestes sete anos que disseram os médicos?
— Fui a todos os médicos de Placência, pelo menos aqueles que conhecia, e todos me disseram mais ou menos veladamente que sou um caso típico de histerismo.
O padre sentiu-se confirmado em sua opinião
— E a senhora ficou convencida disso? — perguntou.
— Não, porque sinto que não sou histérica, e muito menos louca.
— E então?
— Então... Não esperando mais nada dos homens, senti a necessidade de me voltar para Deus, de entregar-me a Ele. Fui, embora sentindo muita repugnância, a todas as igrejas da cidade para orar, para receber a benção dos sacerdotes, e confesso que especialmente a benção me faz sentir melhor, pelo menos durante alguns dias. Mas agora já fui tantas vezes que quase não tenho coragem de voltar a fazê-lo, porque receio que os sacerdotes me considerem louca. E a proposito escute.
A senhora tinha um olhar firme, resoluto, embora um pouco triste. Nada nela denotava qualquer anormalidade. O padre começava a interessar-se cada vez mais pela narrativa.
— Disseram-me que nos arredores de Placência, nas colinas, havia um pároco famoso pelas suas bênçãos. Desejosa de experimentar o efeito das suas virtudes, certo domingo depois do almoço (era no verão) mandei atrelar uma caleche para a viagem. Quem me emprestou cavalos e carruagem foi o meu pároco de S. Jorge. Acompanhada de meu marido e dos meus pais, pus-me a caminho, satisfeita. O cavalo que era excelente, durante boa parte do percurso devorou a estrada; mas, a certa altura, comecei a sentir-me mal. Ao mesmo tempo o cavalo estacou e não quis avançar mais. Chicotearam-no ate sangrar. O pobre animal, escoiceando e empinando-se, retesava as pernas, esticava o pescoço, mas não arredava pé. Então já fora de mim, saltei da carruagem, desprendi-me dos braços que me retinham, e voando cerca de meio metro acima do chão, atravessei os campos, e subi a colina em direção à igreja para onde nos dirigíamos. As pessoas que naquele momento saiam da benção da tarde, vendo-me aparecer daquele modo, aos urros, a gesticular com os véus e os cabelos em desordem, começaram a agitar-se. As mulheres gritavam, os cães ladravam, as galinhas voavam espavoridas a esconder-se. Finalmente cheguei ao adro. Todos se afastaram para me deixar passar; e eu, sempre voando, de cabeça baixa, fendendo a direito, enfiei pela porta entreaberta da igreja e fui cair estendida ao comprido, mesmo diante do altar-mor, que tinha um retábulo de Santo Expedito. O pároco, seguido pelo povo acorreu e, percebendo o que se passar, deu-me a benção e eu voltei a mim e durante vários dias senti-me perfeitamente bem.


A TERRIVEL REALIDADE

Chegando aqui a senhora suspendeu o relato, perguntando ao padre o que pensava de tudo aquilo. Este, sempre convencido de que estava perante um caso patológico, respondeu vagamente:
— Não há duvida de que são fenômenos estranhos, muito estranhos... — e para arrematar acrescentou: — Olhe se a benção lhe faz bem, venha sempre, sem receio, se eu não estiver, estará sempre algum colega meu.
Dias depois a senhora apresentou-se novamente na Igreja de Santa Maria di Campagna. Enquanto o padre Pier Paolo estava aplicado a dar-lhe a benção diante do altar de Nossa Senhora, ela, sentada como estava junto de uma coluna do presbitério (efetivamente tinha pedido para se sentar), começou baixinho, de lábios cerrados, a uivar como um cão preso de noite, depois encostando a cabeça na coluna, de olhos fechados e mãos caídas no regaço entregou-se subitamente ao canto, um canto riquíssimo, apaixonado, esplendido. Depois de ter cantado — e, entretanto tinham acudido de olhos esbugalhados, todos os garotos que brincavam no adro e nas imediações da igreja — mantendo-se sempre na mesma posição, começou a invectivar numa língua desconhecida qualquer coisa invisível, mas com tal violência que parecia uma louca no auge de um ataque de fúria.
Naquele momento saia do coro e ia a atravessar a igreja outro frade menor, o padre Apollinare Focaccia. Este chegou a tempo de ouvir o canto e as imprecações indecifráveis. E nessa noite, conversando com o padre Pier, perguntou-lhe.
— Reparou naquela senhora?
— Sim; por quê?
— Não ficou impressionado?
— Para falar com franqueza, não fiquei. Como capelão do manicômio já estou habituado a certas cenas...
— Mas olhe — volveu o outro — que aquela senhora esta possessa.
E tanto disse e tanto fez que na manhã seguinte o padre Pier Paolo apresentou-se ao bispo.
Monsenhor Pellizzari, depois de ter examinado seriamente o caso, ordenou que se fizessem os exorcismos. O padre, a falar a verdade, não parecia nada disposto a isso, receoso de enfrentar o demônio e sofrer insultos e ameaças. Mas a ordem do bispo não admitia réplicas.
Ao sair do paço episcopal o padre Pier foi imediatamente procurar o Dr. Lupi, o competentíssimo e generoso diretor do manicômio que toda Placência conhecia e estimava, e ainda hoje recorda. Encontrou-o no seu gabinete de trabalho.
— Doutor — disse logo ao entrar — veja que belo caso me havia de cair em sorte. — e em poucos minutos pô-lo ao corrente de tudo.
— É na verdade um belo caso — corroborou o medico. — Posso assistir às sessões?
— Vinha justamente convida-lo.
— Não faltarei.
— Mas com uma condição, doutor; que o senhor fique com suas opiniões e eu com as minhas. A menos que os fatos sejam tão evidentes que nos conduzam a ambos as mesmas conclusões.

O PRIMEIRO EXORCISMO

Por escrúpulo de exatidão objetiva e quase cientifica, e também para acalmar a sua própria inquietação, o padre Pier quis que varias pessoas assistissem aos exorcismos. Assim não se acharia só frente a frente com as fúrias da suposta possessa. Além disso, pediu a um frade da sua comunidade, o padre Justino, que sabia bem estenografia, que fosse fixando no papel o desenrolar dos diálogos: o que justamente nos permite agora referir com absoluta exatidão e objetividade os acontecimentos.
Às 14 horas do dia 21 de Maio de 1920 realizou-se a primeira reunião para os exorcismos.
A sala dos exorcismos, em Santa Maria di Campagna, fica no primeiro andar do santuário. Em frente ao altar foram colocadas duas cadeiras, que deviam servir de genuflexório ao exorcista e ao seu assistente, para as orações preparatórias. Um pouco mais atrás, uma cadeira de verga para a senhora, e dos lados em semicírculo, outras cadeiras para os assistentes e testemunhas. A direita do altar, a cadeira para o medico, à esquerda, o banco do estenografo e uma pequena mesa com a estola, a sobrepeliz, o ritual romano, o hissope e o balde da agua benta.
Recitaram-se as ladainhas dos santos e as longas orações introdutórias.
Quando os dois sacerdotes chegaram ao esconjuro mais forte, a senhora, que ate então se deixara estar sentada, bocejando e estirando os braços como uma fera prestes a despertar, subitamente, unindo às mãos as pontas dos pés, ergueu-se com admirável elegância no ar, e depois foi cair, desenrolando-se como uma cobra, ao meio da sala, onde ficou estendida.
O corpo da mulher estava totalmente transformado. O seu rosto tornara-se horrível. Imediatamente fez menção de se atirar ao exorcista, gritando com voz retumbante.
— Mas que és tu que ousas vir combater comigo? Não sabes que sou Isabo, o que tem as asas longas e os punhos fortes?
E soltou contra o exorcista uma torrente de injurias.
O sacerdote, vencido pela emoção, a principio ficou como aniquilado; mas depois uma força nova começou a invadi-lo, e sentiu-se impelido por um espirito combativo que não podia explicar humanamente.
Ordenou a mulher que se calasse.
— Eu sacerdote de Cristo, ordeno-te a ti, quem quer que seja, e ordeno pelos mistérios da Encarnação, da Paixão e da Ressurreição de Jesus Cristo, pela sua Ascenção ao Céu e pela sua vinda no Dia do Juízo Final, que te aquietes e não faça mal nem a esta criatura de Deus, nem aos circunstantes, nem as suas coisas, e que obedeças em tudo aquilo que eu te mandar.
Acabado o esconjuro, no meio da ansiedade dos presentes, começou o terrível interrogatório no qual iriam lutar tenazmente o sacerdote e o espirito rebelde: um para fazer-se obedecer, e o outro para lançar a face do adversário a sua silaba preferida “não”.
— Em nome de Deus, quem és tu? — perguntou, com autoridade, o exorcista.
— Isabo! — uivou a mulher, despertando do seu letargo, com a face rubra e os olhos esgazeados.

— Que significa Isabo?
— Tu tens inimigos que...
— Que significa Isabo?
A mulher tentara desviar bruscamente o assunto, mas detida pela segunda pergunta do sacerdote gritou, mordendo-se os braços e as mãos e tentando agarrar o habito do exorcista.
— Significa estar tão bem arranjado que nunca mais se pode soltar.
— Que poderes tens?
— Os poderes que me dão.
— Que poderes te dão?
— Tantas forças...
— De quem recebe essas forças?
— Da pessoa em que sabes esconjurar-me.
— Mas que italiano é esse que estás a falar.
A mulher fez um gesto como de desdém.
— Eu não sou italiano — gritou sarcasticamente. E prorrompeu numa catadupa de injurias, que havia de renovar-se muitas vezes durante os exorcismos.
O sacerdote continuou imperturbável.
— Donde vieste?
— Mas tu mandas em mim como se eu fosse teu escravo!
— Diz-me donde vens.
— Não.
— Em nome de Deus, daquele Deus que tu conheces, diz-me donde vens.
A mulher, ouvindo pronunciar o nome de Deus, voltou à cara para o outro lado, como um touro furioso que tivesse recebido uma cacetada no focinho, e ficou imóvel, num silencio sinistro durante vários segundos.
— Em nome de Deus — repetiu o sacerdote — pelo seu sangue, pela sua morte, diz-me de onde vens.
— Dos desertos distantes.
— Estás só ou tens companheiros?
— Tenho companheiros.
— Quantos?
— Sete — respondeu, depois de muitas tentativas de mudar de assunto. Estes companheiros tinham também nomes muito estranhos.
Era coisa impressionante ver como a mulher mudava rapidamente de fisionomia e de voz, ora violenta, ora sarcástica, ora desdenhosa — mas sempre rebelde e altiva. No entanto, apesar das suas estranhas atitudes sempre desconformes, conservava uma dignidade, uma compostura singular. Além disso, nunca lhe saiu da boca, no meio das costumadas injurias, uma verdadeira grosseria de expressão.
— Porque entraste neste corpo? — perguntou a certa altura o sacerdote.
— Por um forte amor não correspondido.
— Não correspondido por quem?
— És um imbecil.
— Responde. Quem é que não correspondeu a esse amor?
— Este corpo — gritou a mulher, dando uma formidável punhada no peito.
— E por que motivo não te correspondeu?
Violenta, colérica, sonora, ouviu-se uma resposta incrível.
— Porque isso não é justo.
— Então este corpo é uma vitima tua.
A conclusão a que chegara o padre Pier foi sublinhada por uma risada horrível. A possessa ria, mas desta vez com a boca fechada e com o rosto desfigurado semelhante a um focinho de porco, cuja vista gelou a todos de pavor.
— Quando entraste neste corpo?
Forçada por muitos esconjuros, no meio de um violentíssimo estrebuchar que pôs a prova os músculos dos assistentes, a mulher respondeu:
— Em 1913, no dia 23 de Abril, às 5 horas da tarde.
Coisa tenebrosa! Segundo a declaração da mulher, entrara-lhe no corpo um espirito estranho, em consequência do esconjuro de um bruxo, feito por meio de um pedaço de carne salgada, de um copo de vinho e de umas gotas de sangue...
— Foi assim realmente? — perguntou o padre.
— Por meio de um pedaço de carne e de um copo de vinho branco tomado enquanto se pronunciavam certas palavras.
Vinha a proposito, naturalmente, perguntar quais tinham sido as palavras magicas, mas no meio daquela espantosa confusão, com o espirito a debater-se, a uivar, a ameaçar constantemente, o exorcista esqueceu-se.
— Invadiste só este corpo ou também os membros da família?
— Também os membros da família.
— Concretiza.
— Quando este corpo está mal, também à família se sente indisposta.
— Um caso de telepatia...
— Imbecil!
— Quanto tempo levou a fazer-te entrar neste corpo?
— Sete dias.
— Em que lugar foi feito o maleficio?
— Numa casa aqui em Placência
— Em que casa?
— Não perguntes! — gritou alarmada a mulher. — Não pode ser!
— Então vai-te!
— Não.
O sacerdote renovou o exorcismo:
— Vai-te!
— Nunca! — foi à resposta cortante.
— Ordeno-te que saias.
— Não saio. Sou Isabo! E num ímpeto de revolta, desembaraçou-se dos assistentes, e com as mãos aduncas, os olhos lampejantes, atirou-se ao sacerdote, agarrou-se ao habito, arrancou-lhe a estola e despedaçou-a com furor, gritando: — Levaram sete dias para me fazer entrar e tu queres fazer-me sair deste corpo só com um exorcismo?
Era um momento critico. Todos se tinham levantado, num sobressalto. Só o medico continuava imóvel, impassível, de olhos fitos na mulher. O sacerdote aspergiu-a com agua benta, e ela, como se tivesse sido salpicada de fogo vivo, atirou-se para o chão, contorcendo-se e enroscando-se toda.
— Quando te decides a sair?
Uma expressão de profunda tristeza estampou-se no rosto da mulher.
— Que posso eu fazer, se enquanto tu trabalhas para me expulsar outros trabalham para que eu fique?
— Sai! — exclamou o exorcista, pondo a orla da estola no ombro da senhora.
Mal sentiu o contato da estola, a mulher, que ficara estendida a todo o comprido, deslizou pelo pavimento como uma cobra e, louca de terror, uivou:
— Tira-me daqui este peso!
As cenas iam-se tornando cada vez mais horríveis, mas arrepiantes.
Mas finalmente a mulher foi obrigada a responder:
— Sairei quando tiver vomitado a bola que tenho no vente. — Tratava-se da bola de carne com que fora feito o maleficio.
Entretanto tinham ido buscar uma bacia.
— Vomita!
A possessa, com um salto formidável, foi debruçar-se sobre a bacia e vomitou qualquer coisa.
O segundo exorcismo realizou-se na tarde do dia 23 de Maio. No terceiro, o demônio confessou:
“Ligaram três plantas. Já fui esconjurado três vezes”.
Ao quarto exorcismo, que se realizou na tarde do dia 1 de Junho, o exorcista quis esclarecer a questão das três plantas.
— No outro dia falaste de três plantas. Onde estão elas?
— Não sou eu que devo revelar-te essas coisas.
— Em nome de Deus, pelo seu poder infinito, diz-me onde se encontram.
A possessa ficou uns momentos hesitantes, como alguém a quem um forte escrúpulo de consciência atormentasse; finalmente, forçando a própria vontade, disse resolutamente:
— Uma no jardim de N.N, outra no leito do Pó, a terceira no jardim perto da casa de N.N.
— Com que foram ligadas?
— Com um fio de lã branca
— Quem as ligou?
— A primeira, N.N (a pessoa que mandara fazer o maleficio); a segunda N.N (um bruxo que gozava da fama de santo junto do povo mais ignorante); a terceira, a que esta no leito do Pó — afirmou tranquilamente erguendo os braços — foram estes braços.
— Ensina-me o modo de as desligar.
— Não posso.
— Porque é que não podes?
— Porque, quando fizeram isso, quiseram que não dissesse.
— Quando se desligarão as plantas?
— Duas já estão desligadas.
— E quando se desligará a terceira?
— Enquanto aqui estiver o deposito (ou seja, a bola de carne que a possessa nunca diferira), a planta não se desligará.
— E quando sairá o deposito?
— Não sei dizer.
— Em nome de Deus, em nome da Virgem...
— Quando tu quiseres.
— Quero já. Levanta-te e vomita.
A possessa fugindo das mãos dos assistentes correu a bacia.
— Vomita!

— Não, não vomito porque hoje já fizeste demais.
— Deus nunca faz demais. Vomita!
— Não, não! — urrou a possessa.
— Em nome de Jesus Cristo, pela sua Paixão e morte, faz rejeitar a essa criatura tudo quanto tomou por maleficio.
A possessa obedeceu e vomitou qualquer coisa entre espasmos atrozes. Depois se suspendeu por algum tempo o exorcismo.
A história das plantas tinha despertado em todos os circunstantes viva curiosidade, não só pela estranheza do caso, mas também porque por ela se poderia controlar a veracidade das afirmações do espirito.
Aproveitando aquele breve intervalo, o padre Pier perguntou a possessa que, entretanto voltara completamente a si, se alguma vez na vida tinha ligado plantas.
Ao ouvir esta pergunta, a senhora olhou para ele um pouco surpreendida e sorrindo disse:
— Sim, liguei uma.
— Onde?
— No leito do Pó.
— Com que a ligou?
— Com um fio de lã.
— Branca ou preta?
— Branca.
— E por que motivo?
— Porque me tinham dito que com aquele fio poderia ligar o meu mal a planta e assim libertar-me dele.
— E isso aconteceu? Libertou-se?
— Pelo contrario. Assim que liguei a planta com o fio, fiquei sem poder afastar-me dela. Depois comecei a piorar, e a planta secou. Mas porque me faz essas perguntas?
— Porque durante o exorcismo falou dessa planta.
— Fiz mal em atá-la?
— Sem dúvida: é uma superstição.
— Naquela altura estava tão mal, que se me tivessem dito que era preciso atirar-me ao fogo para me curar, atirava-me.
— Mas realmente não conseguia afastar-se da planta?
— Não só não conseguia afastar-me, como não podia chamar em meu auxilio o meu marido e um amigo nosso que, de costas para mim como fora combinado, tinham ficado a minha espera a uns vinte metros, se tanto.
— E então?
— Para me libertar tive de lutar com todas as minhas forças e encomendar-me a Nossa Senhora.
— E a planta secou?
— Talvez fosse coincidência, mas secou.
— Sabia que, enquanto a senhora atava essa planta no Pó, outros, em diferentes sítios, atavam outras duas?
— Não.
O marido, companheiro inseparável da senhora, ia confirmando tudo isto.
Ao sexto exorcismo, realizado a 6 de Junho, o exorcista perguntou a possessa.
— Por quanto tempo te ordenaram que habitasses este corpo?
— Por toda a vida. E a intenção dele era matá-la. — (Aludia ao autor do maleficio), um Dom Juan boçal e rustico, violentamente enamorado da senhora e por ela repelido.
Quase no fim do oitavo exorcismo, realizado a 11 de Junho, o padre Pier perguntou:
— Que deve fazer este corpo para deixa de estar invalido por ti?
— Deve entregar-se aquele homem.
— Cala-te, espirito imundo, e responde só a minha pergunta.
— Deve abraçar aquele homem.
O amante rejeitado podia orgulhar-se do belo aliado que arranjara.

ESLENDER

Os exorcismos sucediam-se uns aos outros num ritmo inexorável. O espirito continuava rebelde, mas não tão seguro de si como das primeiras vezes.
Quando o dialogo entre o sacerdote e o espirito atingia me certo momentos particular dramatismo e intensidade, davam-se sempre cenas impressionantes. Quando por exemplo, o furor do espirito chegava ao auge, o corpo da senhora ficava frouxo e pendente como se fosse um saco vazio, e depois, bruscamente, parecia que uma coisa viva se debatia furiosamente lá dentro e saltava sem parar, num desespero. Como quando se amarra um gato dentro de um saco, e o pobre animal enfurecido e desesperado, se agita continuamente com toda a agilidade que lhe é própria. O corpo da possessa era então o tênue véu sem forma, que inchava e se distendia aqui e além, desenhado todos os saltos daquele gato misterioso e terrível. Era esta a cena que mais horrorizava os assistentes.
— Que havemos de fazer para te obrigar a sair depressa? — perguntou o padre Pier no fim do oitavo exorcismo.
No silencio profundo da sala, o espirito, em voz calma e solene, respondeu:
— Rezar.
E na verdade as forças do mal estavam a ser duramente combatidas pela oração.
Dir-se-ia que certos companheiros do espírito — forças, como ele lhes chamava — já tinham sido obrigados a afastar-se. Entre estes muito poderosos, contava-se Eslender. (Os nomes dos demônios eram-lhe atribuídos pelos feiticeiros.).
Ao nono exorcismo o padre perguntou:
— Para onde foi Eslender?
— Para o corpo de X. — Tratava-se de pessoa bem conhecida.
— Por quê?
— Porque tu não lhe indicaste o destino.
— Mentes; indiquei.
— Então não foste capaz de o obrigar, eu sou mais forte do que tu.
— Isso não é verdade.
— Mas sou mais ágil a pensar do que tu. Ainda tu estavas para lhe indicar o destino, já eu o tinha mandado.
— E foi só ou com companheiros?
— Só.
— Conjuro-te que revogues imediatamente a ordem.
— Mas eu — disse a possessa abanando a cabeça e agitando-se toda — eu é que não estou para isso! Basta, basta! Nem sou eu que tenho que dar essas ordens...
— Em nome de Deus, ordeno-te que faças sair Eslender imediatamente. Já saiu?
— Não.
O sacerdote agarrou na cruz, ergueu-a ao alto bem defronte da possessa e gritou:
— Por essa cruz, por aquele Deus que um dia sobre esta cruz deu a vida e se deu todo para nos arrancar do teu poder, faz sair imediatamente Eslender. Já saiu?
Desta vez a mulher rugiu de dentes cerrados:
— Sim, já saiu, mas ainda esta na casa.
— E que faz nessa casa?
— Fala línguas estrangeiras, gesticula, berra. Chamaram aquele saco de carvão do Dom Pallaroni. — (Dom Pallaroni, pároco de S. Jorge de Placência.).
— E o arcipreste, o que faz?
— Lê o oficio.
— Eslender ainda esta na casa?
— Dom Pallaroni quis manda-lo entrar no corpo de um cão, mas não foi capaz...
Enquanto Isabo insultava o arcipreste de S. Jorge, Eslender insultava o frade de Santa Maria di Campagna.
Com efeito, na casa do pároco de S. Jorge aconteciam, entretanto as coisas mais estranhas. Uma das irmãs fazia de vez em quando grandes discursos em alemão, língua que nunca soubera. Depois, a mania dos discursos em alemão, transferia-se bruscamente para o irmão e tudo recomeçava. De noite, sopros impetuosos apagavam de repente os candeeiros de petróleo. As portas e janelas escancaravam-se e batiam. O irmão não conseguia dormir toda a noite com o grande estardalhaço de correntes e ferros velhos que o atormentava. Uma vez convidou o regedor da aldeia, um mocetão alto e forte que se ria daquelas historias (como nós seriamos tentados a ri também, valha a verdade), para dormir no seu quarto. O regedor aceitou. E nessa noite mais uma vez a confusão foi tremenda. O irmão fugiu para o andar de cima, para os pés da mãe, e o regedor, talvez por não conhecer bem a casa não achou melhor solução do que saltar pela janela para a rua, e deitar a fugir a sete pés.


ALGUMAS VINGANÇAS DE ISABO

Um dia, o Sr. Cassani, uma das pessoas que habitualmente assistiam os exorcismos perto da possessa, foi procurar o padre Pier. Parecia agitado.
— Padre, preciso de si.
— Fale a sua vontade.
— Durante estes sete anos, como vizinho e amigo da casa, amparei sempre a pobre senhora nas suas crises, acompanhando de minha filha...
— E então?
— Ultimamente o espirito disse já por varias vezes que eu tenho de morrer... E o espirito nunca ameaça em vão. — O Sr. Cassini parecia aterrorizado.
O sacerdote quis tranquiliza-lo:
— E acha que é preciso o espirito dizer isso para uma pessoa saber que tem de morrer?
— Desculpe padre. Não me deixou acabar.
— Diga.
— O espirito disse que eu morro daqui a três meses, vitima da sua vingança.
— E o senhor acredita nisso?
— Não hei de acreditar!
— Não sabe que o espirito é o pai da mentira?
— Padre, permita-me que não seja inteiramente da sua opinião.
— Mas não sou eu que o digo, é a Igreja.
— Padre, nestes sete anos tive ocasião de observar muita coisa, e posso garantir que tudo quanto Isabo disse veio a confirmar-se com uma exatidão matemática.
Alguns meses depois, numa fria tarde de Novembro, o padre Pier foi chamado justamente pela ex-possessa, então já completamente curada:
— Padre, acuda depressa, se quer chegar a tempo de o ver e de o confessar.
— Mas a quem?
— Ao Sr. Cassini!
— O que é que ele tem?
— Esta a morrer.
— É lá possível!
O padre foi a toda a pressa. Encontrou realmente o Sr. Cassini na agonia. O moribundo, com a voz já entrecortada pelo estertor, perguntou:
— Recorda-se, padre, da benção dada diante do altar da Virgem?
— Recordo, sim.
— Recorda dos meus pressentimentos?
— Sim.
— Morro da vingança dele. — Aludia ao espirito.
Dois meses antes ocorrera completamente inesperada, a morte do bispo monsenhor Pellizzari. O demônio, pela boca da senhora, ameaçara que o bispo, se concedesse autorização para os exorcismos, morreria dentro de pouco tempo!
O padre Pier, mesmo depois da cura da endemoninhada, viveu no pesadelo das suas recordações.
Durante um exorcismo Isabo dissera-lhe:
— Tu tens medo de me ver.
— E quem não o teria? — volveu o padre.
— Pois esta noite, a meia-noite, hei de aparecer-te ao pé da cama.
— Não quero ver a tua face horrenda! — exclamou o exorcista.
— Deixa que eu volto-me para o outro lado — casquinou o espirito com a sua voz de barítono, que fez arrepiar os circunstantes. A partir de então, e durante grande parte de sua vida, o padre Pier passou a dormir com a luz acesa. Aquele regougar de troça ficara-lhe no sangue como alguma coisa metálica e gelada.
Um dia, sentiu uma grande pancada na cabeça. Olhou em volta e não viu ninguém. Não conseguiu aguentar a cabeça, o queixo decaiu-lhe sobre o peito. E dizia para consigo:
— É a vingança do demônio. E ainda é pouco, esperava pior. O Senhor é misericordioso.
Mas o terror nunca mais o abandonou.

SATANAS ABATIDO

Os exorcismos diminuíram cada vez mais a força do demônio. A partir do nono exorcismo, de vez em quando, parecia que o espirito tinha dificuldade em encontrar as palavras de resposta, e balbuciava num esforço para se exprimir. Então, da boca contraída, e também das narinas dilatadas, saiam estampidos secos, semelhantes ao ruído que fazem as pedras quando a roda de um automóvel as apanha de traves e as faz saltar para longe. Mas procurava sempre esconder a sua debilidade sob um tom de arrogância.
No encontro de 12 de Junho (o duodécimo), às 15 horas como de costume, os circunstantes tiveram uma surpresa. Durante as orações preparatórias, a possessa não se espreguiçava, não bocejava, não lançava em torno aqueles olhares sinistros que suscitavam, sobretudo das primeiras vezes, tanta impressão; mas, sentada, com as mãos apertando os braços da cadeira e o queixo apoiado no peito, permanecia imóvel, sombria e ensimesmada, como a encarnação do remorso.
As primeiras palavras que o exorcista lhe dirigiu, ergueu-se lentamente, como obedecendo a um comando interior, e, sempre lentamente, estendeu-se no colchão posto a seus pés, deitado ali ficou, rígida e imóvel, sempre de olhos fechados.
Os assistentes olhavam com terror para aquele corpo que jazia de costas como num caixão e esperavam de um momento para outro um salto felino, um daqueles gritos inesperados que gelam o sangue e que só uma força inumana é capaz de emitir. O exorcista relanceou os olhos à cruz pousada sobre o pequeno altar, verificou se o balde da agua benta estava no sitio próprio, ao alcance da mão, e, terminado o esconjuro, abriu o interrogatório.
— Ordeno-te que te deixes estar quieto e respondas só as minhas perguntas. Percebeste?
Não obteve resposta.
— Responde-me. Percebeste?
O mesmo silencio.
— Não podes ou não queres responder-me?
Silencio completo.
O exorcista começava a estar embaraçado. Não sabia como obrigar um mudo a responder. Finalmente teve uma ideia.
— Se não podes responder — disse — levanta um dedo, se não queres levanta dois.
A esta ordem, no meio de um silencio absoluto, viu-se a possessa levantar lentamente com grande fadiga um só dedo. Não podia responder.
É claro que um colóquio no qual um dos dois interlocutores fala por meio de sinais bastante escassos perde todo o interesse de narração, mas o que viram com os seus próprios olhos a cena daquele dia não esqueceram mais a impressão que lhes causou ver a possessa, ainda há pouco tão violenta e rebelde, jazer exausta, humilhada, batida, com uma expressão de abatimento e dor profunda impressa no rosto.
Assim se desenrolou um dialogo estranho e inverossímil. O frade formulava as perguntas, e a possessa respondia levantando ora um dedo ora dois, conforme os casos.




A LIBERTAÇÃO

Já no quinto exorcismo o demônio dera a entender que o padre Pier podia dar-se por muito feliz se conseguisse expulsa-lo a 23 desse mês.
Durante o oitavo exorcismo o padre perguntara:
— Quando sairás?
— A 23 de Junho de 1920.
— E porque não sais antes disso?
— Esta assim destinado.
— Quem destinou?
— Quando me esconjuraram determinaram que ninguém obtivesse a cura, mesmo fazendo os exorcismos, antes do dia 23.
— Tudo imposturas! Tudo mentiras! — gritou indignado, o exorcista. E na verdade quem poderia acreditar em semelhantes afirmações? — Deus é superior aos bruxos!
— Se Deus não fosse superior aos bruxos — respondeu o espirito em tom solene e de olhos dilatados pelo terror — eu nunca sairia daqui.
No decorrer do undécimo exorcismo, que foi a 18 de Junho, o padre Pier perguntara quando sairia à bola de carne.
O espirito respondeu-lhe:
— A 23 de Junho.
— Que horas?
— As cinco.
Finalmente veio o grande dia 23 de Junho. Se o espirito falara a verdade, sairia durante aquele exorcismo. O Dr. Lupi, que ainda se esforçava por observar o caso com a imparcialidade e a frieza do cientista, estava possuído da mais viva curiosidade. A senhora e as pessoas da família tinham passado as ultimas horas numa tensão quase insuportável.
Todos foram pontuais ao encontro... Rezaram com muito fervor na igreja e depois passaram a sala dos exorcismos.
Como da ultima vez, durante as orações preparatórias a possessa não se moveu, não disse palavra, mas pálida e exangue permaneceu de cabeça baixa no seu lugar, exatamente como um condenado estaria na cadeira elétrica. As primeiras palavras do exorcismo ergueu-se com fadiga, e com fadiga foi estender-se ao colchão, onde ficou hirta, de olhos fechados. Tudo como da ultima vez. O Dr. Lupi observava-a, com os olhos quase de fora das orbitas, tal o esforço de não perder o mínimo pormenor.
E começou o ultimo dialogo, um dialogo dramático, entrecortado de misteriosos momentos de silencio, apenas preenchidos a custo por frouxos movimentos da possessa.
— Em nome de Deus, imponho-te que me obedeças em tudo quanto te mandar. Compreendeste?
Silencio.
— Ordeno-te em nome de Deus e da Virgem.
O mesmo silencio.
— Se me compreendeste, levanta um braço, se não, os dois.
Lentamente, com grande dificuldade, a possessa levantou um braço. O espirito tinha compreendido.
A certa altura, encolerizado, o padre ordenou:
— Levanta-te e vomita!
A possessa, quase arrastando-se, ergueu-se e, de cabeça baixa e olhos pregados no chão, foi ajoelhar-se junto da bacia. Inclinou-se e começou a esforçar-se, em terríveis arrancos que pareciam despedaçar lhe o corpo. O sacerdote insistia, e ela cada vez mais se esforçava por obedecer. Era uma cena penosa. A pobre senhora tinha um parecer cadavérico. Estava exausta.
— Vomita!
A possessa num terrível espasmo tentou mais uma vez. Estava ajoelhada e tinha os cotovelos apoiados em duas cadeiras colocadas dos lados. Mas daquela garganta martirizada continuou a não sair coisa alguma.
— Recitemos o Sanctus — disse o padre.
Só então a possessa conseguiu vomitar qualquer coisa, mas era pouco. E a cabeça descaia-lhe cada vez mais, como se a vida estivesse prestes a abandona-la. Seguraram-lhe a cabeça para que não caísse de bruços.
Nessa altura o exorcista olhou para o relógio.
— São quatro horas e trinta e cinco minutos — disse com voz comovida. — Com toda a autoridade que me vem de Deus, eu te ordeno, espirito imundo, que saias imediatamente deste corpo. Se saíres já, mando-te para o deserto, para o centro do Sara, se não saíres já, mando-te para o inferno.
Estas palavras encheram a sala de uma atmosfera de solenidade. Os frades, o medico as senhoras, os outros assistentes, todos estavam extremamente pálidos. Nem um sopro de respiração quebrava o silencio carregado de expectativa.
A possessa, a esta ordem do sacerdote, puxou lentamente para trás o couro cabeludo, e foi como se uma enorme peruca de palhaço lhe escorregasse pela nuca. Uma grande peruca de lã caprina, que tornava tragicamente ridículo o rosto e enormemente dilatados os olhos. Fixou os olhos lacrimosos no exorcista, que estava sentado frente dela. Uma expressão de imbecil. Os músculos da face estavam completamente relaxados, e o lábio inferior pendia inerte. Nada humano restava naquele rosto. Os olhos esgazeados e vidrados de lagrimas, a boca aberta, a palidez cadavérica, a peruca descaída sobre a nuca... Os presentes não puderam conter as lagrimas.
Mas de repente ouviu-se uma voz lúgubre, angustiada, lamentosa:
— Eu voouoou-me!
A cabeça da possessa caiu bruscamente sobre a bacia, e viram-na vomitar uma grande quantidade de coisas.
— Vamos, vamos! — gritou o sacerdote quase louco de alegria.
No mesmo instante a possessa deixou de sentir o peso horrível da estola e a imposição da mão. Com voz fresca, de mulher moça, exclamou:
— Estou curada! — E olhou estupefata em volta, de olhos muito abertos. O seu olhar girava, interrogativo, fitando os assistentes, mas nos lábios havia um sorriso, o sorriso feliz da libertação.
— E a bola de que alava Isabo? — perguntou o padre Pier.
— A bola deve estar na bacia — respondeu o doutor, levantando-se a toda pressa dirigiu-se para junto da bacia e meteu a bengala no meio das coisas vomitadas.
— Olhem para isso! — exclamou o medico. As coisas vomitadas puderam ser todas levantadas na ponta da bengala, como se fossem um pano. E, com efeito, ante os olhos dos assistentes estupefatos, desdobrou-se como que um véu belíssimo, todo estriado das cores do arco-íris.
No fundo da bacia, completamente enxuta, apareceu a famosa bola, tantas vezes mencionada pelo espirito. Era uma bola de carne de porco, do tamanho de uma pequena noz, com sete biquinhos. O espirito cumprira a palavra.
O medico estava estarrecido. Mesmo para ele, esta era a prova decisiva.
A senhora, presa de uma comoção indizível, chorava. Mas era um choro que finalmente lhe fazia bem. As outras senhoras presentes levavam também o lenço as olhos.
O medico curvado a examinar o conteúdo da bacia, e os frades que de mãos postas olhavam ora para a senhora ora para o crucifixo, não encontravam palavras para exprimir o que sentiam. Mas agora era a senhora que rezava por todos eles, correra a ajoelhar-se diante do altar e oferecia ao altíssimo o seu pranto de alegria.
A história da endemoninhada e dos exorcismos tornara-se do domínio publico em Placência e em quase toda a região vizinha.
Por toda parte se falava dela. A pesada porta de castanho do convento e a vigilante guarda de Frei Antônio não tinham conseguido manter cerrado o véu do segredo sobre o caso.
Ainda hoje a recordação deste caso persiste na memoria de muitos. E quem deseje saber noticias mais pormenorizadas, abonadas de maior copia de nomes e indicações (que por razões evidentes preferimos calar), não tem mais que ir a Placência. Ser-lhe-á fácil reconstituir na integra a sequencia dos acontecimentos aqui referidos.




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