1 / O que é magia ritual?




A magia ritual, ou cerimonial, é um dos maiores instrumentos de aprendizado e trabalho ocultistas. Evidentemente, trata‑se de trabalho de natureza um tanto mais avançada que as conhecidas técnicas de meditação, visualização, concentração e sensibilidade psíquica, e, por esta razão, as pessoas em geral não têm uma idéia muito clara sobre o assunto. Em seu sentido mais restrito, não tem realmente muitos pontos de contato com a imagem apresentada por escritores ou jornalistas de sucesso, cuja origem pode ser encontrada sobretudo nas superstições medievais.

Trata‑se de uma disciplina e de um método de prática ocultista que exige o empenho de todas as faculdades do estudante da Grande Obra. Como em qualquer ocultismo bem‑conceituado, esta é o desdobramento da percepção, com o intuito de aperfeiçoar nossas qualidades humanas em geral e nossa compreensão do universo e, a partir disso, agir como intermediários conscientes para obra de Deus em Sua criação. A primeira parte do trabalho ocultista consiste em transformar nossa própria pessoa num instrumento digno para ser utilizado pelas forças da luz; e, a segunda parte, como conseqüência direta, é a dedicação ao serviço de Deus e em prol da humanidade.

A magia ritual pertence mais à segunda parte do desenvolvimento ocultista, pois não é possível praticá‑la sem conhecer a fundo as técnicas da visualização; ademais, é imprescindível ter capacidade para uma concentração demorada, uma sensibilidade psíquica controlada e, ainda, uma profunda compreensão intuitiva, que só pode ser conseguida mediante a demorada prática da meditação. Entretanto ela pode ser utilizada para o desenvolvimento de principiantes, quando praticada em grupo, pois assistir a uma série de exercícios rituais, especialmente os de iniciação, pode ser benéfico para o desenvolvimento dos poderes ocultos e psíquicos latentes do estudante sincero.


A importância do simbolismo

O simbolismo tem importância fundamental para o ritual, como aliás para grande parte do ocultismo. Entretanto, ao invés de contemplarmos um símbolo de forma subjetiva, como poderíamos fazer na meditação, no ritual nos tornamos uma parte do símbolo (ou do sistema simbólico), representando‑o no sentido físico e apresentando‑o aos nossos sentidos de todas as maneiras possíveis, seja por visualização, som, tato, odor, e até mantendo‑o diante dos nossos sentidos interiores. Os sentidos interiores não são apenas as faculdades da imaginação, mas também a compreensão mental e a vontade ou intenção espiritual. O objetivo é focalizar a atenção temporariamente sobre um determinado ponto, eliminando tudo o mais além do símbolo.

Esta pode parecer uma operação efetivamente "restritiva", quando, na realidade, é exatamente o oposto, porque não existe qualquer símbolo totalmente independente e auto‑suficiente, e a "restrição" da meditação e da atenção resultam, de fato, no desenvolvimento e crescimento numa outra dimensão.

0 processo é semelhante, de uma certa forma, ao que acontece na meditação, quando a mente revolve, de maneira circunscrita, um determinado tópico e, através desse método, adquire uma compreensão mais profunda. Entretanto a magia ritual é muito mais poderosa que a meditação, pois não empregamos apenas uma faculdade. Por esse motivo, as pessoas extremamente sensíveis, como, por exemplo, as que se dedicam ao desenvolvimento ocultista oriental, que inclui jejum, alimentação vegetariana e exercícios de respiração de ioga, devem tomar o cuidado de não se expor de maneira repentina à magia ritual. Poderiam, num sentido psíquico, "queimar um fusível", porque, sem ter um sistema suficientemente resistente, ficariam expostas a uma "voltagem" psíquica excessiva.

A magia ritual é uma técnica ocidental, para o homem que é obrigado a viver na balbúrdia do Ocidente. O Oriente tem suas próprias técnicas para despertar a sensibilidade dos orientais, que podem se isolar nos eremitérios, afastados das multidões insensatas, sabendo que suas tigelas de esmola estarão sempre cheias.

Na magia ritual, como na maior parte do ocultismo, lidamos com o subconsciente ou inconsciente, e, através destes, entramos em contato com "realidades invisíveis", estados objetivos da existência e entidades que, normalmente, não são acessíveis através do consciente. Isso significa que o ocultismo é muito mais do que brincar com visões subjetivas ou até com os "arquétipos do inconsciente coletivo". É tudo isso, e muitas coisas que tomamos por ocultismo nada mais são do que uma regurgitação de elementos subconscientes; entretanto, para o ocultista preparado, e que "mantém seus contatos", o inconsciente é apenas o espelho mágico, no qual se refletem realidades objetivas, embora não‑físicas. Dessa forma, a consciência se projeta indiretamente numa quarta dimensão.

Tipos de ritual

Os rituais obedecem a uma classificação bastante ampla, conforme as intenções. Podemos distinguir rituais sazonais, de aperfeiçoamento, de iniciação, de exploração e de libertação, embora existam rituais que não podem ser incluídos em nenhuma dessas categorias, e outros que incluem duas ou mais. Trataremos do local para o culto no capítulo dedicado aos rituais, posto que, muitas vezes, existe certa confusão entre rituais religiosos e rituais mágicos, por causa de determinadas semelhanças de estilo e de símbolos.

Os rituais sazonais são celebrados para assinalar acontecimentos especiais do ano do mago, e os principais são os equinócios e os solstícios, que se alternam a cada três meses e que representam as mudanças das marés psíquicas. No trabalho que efetua sobre si mesmo, o mago considera que cada uma das quatro estações tem uma correspondência com sua própria psique. Por exemplo, o elemento água é equiparado freqüentemente ao período entre o solstício de inverno e o equinócio da primavera e, nesse tempo, sua alma se purifica, eliminando todos os resquícios psicológicos desgastados e indesejáveis, preparando‑se para um novo crescimento na maré do equinócio de primavera, que, em geral, equivale ao fogo. Isso não significa, necessariamente, uma volta às formas pagãs do culto da natureza embora tenha, tal como o cristianismo, esses matizes, os quais só podem enriquecê‑lo, quando compreendidos com simpatia ‑, mas é um processo consciente, contínuo, de crescimento psíquico, que se vale das estações do ano como um contexto natural e adequado.

Distorção de caráter

Os rituais de aperfeiçoamento podem ser de dois tipos, que poderíamos classificar como gerais e específicos. Em geral, têm o intuito de equilibrar uma distorção de caráter, que pode ser individual ou de um grupo. Podem auxiliar no tratamento de uma doença física, embora nenhum mago responsável se atreva a substituir um médico. Cada um tem suas tarefas bem definidas: o médico trata os transtornos físicos; o mago cuida das causas internas que podem provocá‑los.

O método de aperfeiçoamento específico tenta remediar um desequilíbrio mediante um ritual dedicado à sua qualidade oposta. Para isso, toma‑se necessário um sistema de correspondências como as da Árvore da Vida, no qual um excesso de suscetibilidade (que simbolicamente é atribuído à esfera de Marte) deve ser tratado através de um ritual ou série de rituais dedicados exclusivamente a Júpiter. O método de aperfeiçoamento geral, ao contrário, salientaria mais um complexo de símbolos de natureza harmoniosa e equilibrada, como o que está associado com o Sol (e todos os deuses curadores pagãos estão, de algum modo, associados com o Sol). Mais uma vez, o emprego de sistemas de símbolos pagãos não deve ser confundido com o culto pagão. Essas formas divinas são apenas lentes psíquicas, nas quais devem ser concentradas forças de tipo apropriado, que emanam ou do inconsciente coletivo ou dos domínios objetivos internos da existência.

Renascimento da consciência

Os rituais de iniciação, invariavelmente, são rituais de grupo, ocasião em que um novo membro aprende o simbolismo específico utilizado pelo grupo. Freqüentemente se encena um drama de renascimento, no qual o próprio postulante tem o papel principal. A idéia inicial é a de induzir o neófito em ocultismo a um renascimento da consciência, para se conseguir que as realidades interiores alcancem a mesma força das realidades exteriores. O recém‑chegado ao ritual, na maioria dos casos, tem sua expectativa voltada para os acontecimentos físicos, sem dúvida porque espera que toda espécie de fenômenos taumatúrgicos e outros espetáculos pirotécnicos ocorram diante de seus olhos.

podemos concluir que a magia, em seu sentido mais verdadeiro, é uma vocação espiritual muito especial.

Vestuário simbólico

Além do tipo de ritual a ser empregado, temos também de considerar as vestimentas e outros objetos simbólicos, que representam uma parte essencial da cerimônia. É nessa área do ritual que se torna aparente a necessidade de um sistema simbólico abrangente, como a Arvore da Vida, da Cabala, porque as cores, e até os materiais usados, variam conforme um ou outro tipo de trabalho. Entrando num ritual, nos despimos, por assim dizer, de nossa personalidade cotidiana e vestimos uma versão mágica ‑ a que corresponde ao rito. Nisso, somos auxiliados pela vestimenta e pelos símbolos. Os símbolos principais normalmente são parecidos com os que aparecem nas cartas do Tarô: o bastão, varinha mágica ou lança; a taça, caldeirão ou cálice; a espada, faca ou flecha; e o disco, ou pentáculo*. Outros símbolos comuns são a chave, o espelho, o anel, a salva, a lâmpada, a faixa, e assim por diante, sem falar dos muitos tipos de incenso que podem ser queimados.


Em sua maior parte, esses símbolos são muito antigos e estão profundamente arraigados na psicologia humana, mas, em termos práticos, seu real valr está na constância com que trabalhamos com eles na magia e na meditação. Como um violinista, um mago deve "construir suas próprias notas", e, em uma prática preliminar e diligente do do "exercício dos cinco dedos" do ocultismo, qualquer tentativa prematura de realizar um ritual pode resultar tão desgastante como os esforços de algum violinista amador e sem treino, com o agravante de possíveis consequências muito mais serias, especialmente quando a tentativa é feita em grupo. Em geral, o mago amador solitário não consegue atrair forças suficientes para se prejudicar.

No que se refere aos símbolos vocais, o que chamamos de "palavras mágicas" ou "nomes do poder", ou ainda, "nomes mágicos", a soma total dos símbolos num ritual, trabalham conforme um princípio diferente, análogo ao de um reator atômico. Ao trabalharmos sistematicamente com diferentes símbolos durante a meditação, de maneira que cada símbolo exerça um efeito poderoso sobre a percepção, a justaposição e inter‑relação de muitos desses símbolos provoca um efeito cumulativo que vai além do lampejo da percepção mundana.

O altar e as colunas

Entretanto os símbolos principais são o que poderíamos chamar de a "mobília" da loja mágica: o altar e as colunas. As colunas representam, em sentido filosófico, a dualidade que se encontra em toda a existência; entretanto queremos mencionar, de passagem, que a filosofia mágica não é dualística, no sentido de que existe um deus bom que luta contra um deus mau. As colunas representam mais os complementos positivo e negativo, masculino e feminino, ativo e passivo, que compõem a teia da vida. Em geral, uma coluna é branca ou prateada, enquanto a outra é preta, porém podem existir outras combinações, como verde e ouro, ou vermelho e azul. Nos termos práticos do exercício do ritual mágico, representam a passagem consciente para os planos interiores da existência além da física. Por esse motivo, freqüentemente um véu está suspenso entre elas, sendo afastado durante o ritual, quando os planos interior e exterior se unem. Passar entre as colunas, com intenções rituais, numa loja mágica bem constituída, pode resultar numa grande experiência, até mesmo para um leigo.

0 altar é o centro focal da atenção durante o ritual e, basicamente, é apenas uma superfície para o trabalho, considerada como em equilíbrio entre as realidades interior e exterior, e sobre a qual podem ser colocados os símbolos utilizados de forma ativa. Muitas vezes, sobre o altar, há uma luz perpétua, que pode também ficar suspensa, como em muitas igrejas, simbolizando a luz eterna, à qual dedicamos toda nossa lealdade.

A loja mágica

Não podemos, pois, nos esquecer da área em que tudo isso acontece, a loja mágica, o templo, ou o círculo. Este é apenas uma esfera definida de atividade, um local reservado no qual nada pode nos distrair do trabalho a executar. Podemos compará‑lo a um anfiteatro para operações cirúrgicas, embora sua atmosfera e o instrumental possam lembrar mais uma igreja.

A magia não é, com toda certeza, uma religião "marginal" ou esquisita. É uma disciplina tão severa como a cirurgia, e com muitas das inconsistências e incertezas das artes médicas, mas multiplicadas, pois trata com o que é imperceptível aos nossos sentidos físicos e à nossa consciência. Não é algo que pode ser facilmente demonstrado a um leigo curioso, embora interessado, posto que, a um observador não‑iniciado, isso poderia parecer uma espécie de encenação dramática amadora num quarto cheio de cacarecos estranhos. Portanto apenas os que têm uma vocação real conseguem perceber as possibilidades em toda sua extensão; isso também explica os mal‑entendidos e a ignorância a respeito da magia. Esperamos que este volume possa contribuir para o esclarecimento.

Em termos mais facilmente aceitos por uma mente moderna, a magia ritual poderia ser chamada de "ciência da mandala". Os que estudaram um pouco de psicologia junguiana dispensam explicações sobre a mandala. É um tipo especial de símbolo que surge na consciência quando uma pessoa, submetida a psicoterapia, está se aproximando da integração psicológica, e sua mente consciente está. entrando em acordo com o inconsciente. Trata‑se de uma figura regular, em geral quadrada, e Jung também acha que a estrutura da psique humana é quádrupla. Recomendamos a leitura de um livro simples, que apresente uma introdução à psicologia junguiana.

Mandala ‑ círculo mágico

Pode‑se dizer que a forma mais simples de mandala é representada por uma cruz num círculo, e sobre essa base é possível construir‑se um sistema completo de ritual mágico. A tradução da palavra hindu "mandala" é, de fato, "círculo mágico". Jung se apropriou dessa palavra para descrever a representação simbólica da psique humana, completa e equilibrada. No Oriente, de fato, as mandalas são empregadas como símbolos para a meditação. A contemplação das mandalas deve produzir uma sensação de paz interior, bem como do sentido e da ordem da vida.

Em seu sentido real, não são apenas construções mentais conscientes, mas símbolos poderosos que surgem, completamente desenvolvidos, das profundezas do inconsciente. 0 que fazemos, de fato, no ritual mágico, é construir uma mandala tridimensional, e trabalhar fisicamente em seu interior. Através desse meio, pretendemos projetar a percepção numa quarta dimensão.

Duas categorias

Sob o aspecto ritual, a magia pode ser dividida em duas categorias. A camada inferior trabalha ao nível de uma espécie de sociedade amistosa de cunho filosófico. Pode haver até vestimentas ou aventais e o recital de vários rituais que, no pior dos casos, se reduzem a uma espécie de brincadeira meio extravagante e, no melhor dos casos, é apenas o recital de fórmulas bombásticas benignas, juntamente com títulos pomposos para a maioria dos participantes.

Quaisquer que sejam as intenções, nessas reuniões, em geral o poder mágico se destaca por estar oculto, embora o simbolismo pudesse eventualmente ter a capacidade de atuar como um canal colimador de forças ocultas, se os participantes soubessem como usá‑las. Isso parece indicar que muitos desses sistemas podem ter se originado de outros com conhecimento de rituais mágicos, mas que decaíram em nossos dias.

Já o nível mais elevado da magia pode se valer, portanto, de fórmulas parecidas, mas, ao invés de ser uma charada colorida, o simbolismo recebe o poder dos planos interiores por intermédio daqueles que aprenderam a usá‑lo. Não é fácil encontrar ou se unir a grupos desse tipo, e existe, ainda, com o correr do tempo, a lamentável tendência de esses grupos se transformarem nos do primeiro tipo; nesse processo, porém, os grupos costumam lançar ao redor disjecta membra (restos desagregados), que formam grupos menores, de mais longa ou curta duração, que retêm ‑ e que podem até superar ‑ a original vitalidade mágica.

Esse processo orgânico pode ser um resultado natural do número de participantes. Quando qualquer grupo aumenta, incluindo mais de uma dúzia de associados, acontece a institucionalização, e é muito raro que um grupo consiga sobreviver e manter sua vitalidade após a retirada de seu fundador. Por outro lado, o ritual não precisa se limitar a uma prática de grupos; poucos entendem que tal prática pode ser individual. Este livro foi escrito para que as pessoas, tenham a oportunidade de se desenvolver ocultamente e, em seguida, possam instruir outros ‑ pois o círculo mágico, ou templo, é um chão mais fértil que qualquer outro para a instrução do ocultismo.

Os fundamentos da magia cerimonial são (1) o círculo (ou templo); (2) as colunas e o altar; (3) a vestimenta; e (4) o ritual. Vamos tratar sucessivamente de todos.

2/ O círculo

Para qualquer propósito prático, é possível considerar um templo mágico como sinônimo de um círculo mágico. O ideal seria dispor de um aposento, ou talvez de uma pequena construção, reservada apenas para o ritual. Este seria nosso templo. Entretanto nem sempre isso é possível, e a melhor alternativa será transformar temporariamente um aposento qualquer em templo, construindo um círculo mágico.


Podemos fazer isso com a maior facilidade pintando um círculo sobre um pano ou tapete, que estenderemos no chão, e que pode ser enrolado e guardado quando não estiver em uso. Evidentemente, o que interessa é o círculo interno, e não o círculo externo. Da mesma forma que o ocultismo prático está interessado na utilização dirigida da concentração mental e da visualização, o ritual mágico é apenas um meio para se conseguir uma concentração e uma visualização muito mais fortes do que seria possível de outra forma.

A diferença física entre um círculo mágico e um templo está no fato de que o primeiro é bidimensional, e o segundo é tridimensional. Num templo haveria, normalmente, um círculo permanente marcado no chão, e, mesmo assim, o mago teria de utilizar sua concentração e imaginação para construir o círculo e o templo "interiores". Dispondo apenas de um círculo físico, temos de construir o círculo e o templo com nossa imaginação concentrada, e a única diferença é que, ao nosso redor, não existem as paredes físicas do templo para nos ajudar na visualização.

Orientação interior

O propósito do círculo e também do templo é a orientação interior. Nossa posição é estacionária com respeito a certas coordenadas predeterminadas. Assim, num sentido bidimensional, estamos parados no centro de um horizonte infinito, no ponto exato de encontro das direções cardeais do leste, oeste, sul e norte. Num sentido tridimensional, vemo‑nos no centro de uma esfera ou de um cubo e, neste último caso, no ponto central entre as seis faces, os oito cantos e todos os doze lados.

A observação pode parecer até banal, mas, entre nós, a maioria carece exatamente de orientação psíquica, e este simples método é um meio excelente para alcançá‑la. Podemos ver isso, em forma diferente, na prática cristã de fazer o sinal da cruz, que tem também uma correspondência oculta na cruz cabalística, da qual falaremos mais adiante. Vale a pena tentar isso como um exercício preliminar para trabalhos mágicos, e também como uma simples pisotearia. Basta insistir moderadamente para ver que os resultados realmente valem a pena, e o mago ritualista deve ser, sobretudo, alguém sempre pronto a experimentar essas práticas, ao invés de apenas ficar sentado e ler a respeito.

O círculo representa a totalidade do homem (quer dizer, de si próprio) e a totalidade do universo. Dessa forma, aprendemos, em primeiro lugar, a nos orientar em sentido central em relação a nossa individualidade maior e desconhecida, as alturas e as profundezas, o Bem e o Mal, o passado e o potencial ‑ e também com respeito à totalidade maior.

A divisão do círculo

O passo seguinte é a divisão do círculo em segmentos, para fragmentar o infinito num certo número de categorias finitas, a fim de manuseá‑las. Pode ser um número qualquer, e podemos empregar qualquer sistema tradicional de símbolos. Poderíamos ter, assim, doze segmentos, dedicando cada um a um signo do Zodíaco. Ou poderíamos ter seis segmentos, repartidos entre os planetas ditos "tradicionais" ‑ com o Sol no centro. Neste livro, para melhor explicar, utilizaremos um sistema mais simples, baseado em quatro divisões, designando, para cada segmento, um dos quatro elementos tradicionais ‑ ar, água, fogo e terra.

Portanto dividiremos nosso círculo, esfera ou templo cúbico em quatro quadrantes, com base nos quatro pontos cardeais e designaremos um elemento para cada um. Teremos, portanto, o ar a leste, o fogo ao sul, a água a oeste e a terra ao norte. Esse plano básico, bidimensional, aplicado a um círculo, está representado no diagrama a seguir. O princípio é igualmente simples quando a aplicação é tridimensional, mas podemos demonstrá‑lo melhor através da construção de modelos sólidos em cartolina. São muito fáceis de fazer e muito instrutivos. Os detalhes da construção estão no Apêndice.

Utilizaremos agora a lei das correspondências, reunindo um quadro de atribuições sob o cabeçalho de cada quadrante. Na página seguinte daremos um pequeno exemplo de quadro.

Devemos ressaltar que esses quadros de correspondências deviam ser empregados, na prática, no interior do círculo. Fora disso, têm apenas a função estéril de aumentar a barafunda de noções na mente do estudante, ou, o que é pior ainda, tornarem‑se objeto, de inúteis discussões sobre as "reais" atribuições.

De fato, parece óbvio que as listas de atribuições só podem diferir de uma pessoa para outra. E, em qualquer caso, as atribuições "reais" são aquelas que mais atraem o indivíduo, que deve tê‑las alcançado através da meditação e de seus próprios sentido e intuição esotéricos, mais do que coletando‑as dentre as páginas de alguma "autoridade". Os leitores podem considerar as atribuições citadas como parte integrante da tradição estabelecida (as quais, para o autor, são de valor comprovado); entretanto não há qualquer imposição no sentido de o leitor adotá‑las como verdades infalíveis. Com a devida experiência, cada pessoa encontrará por si mesma as melhores correspondências. Por outro, até adquirir essa experiência, é aconselhável seguir um sistema já conhecido. Entretanto é preferível não passar de um sistema para outro por motivo de indecisões. Uma técnica eclética pode ser útil para os adeptos experimentados, mas, para um neófito, não passa de desperdício de tempo e de energia.

Ser apenas um colecionador de simbolismos e ficar estudando quadros de correspondências sem jamais aplicá‑las na prática é como ser um colecionador de roteiros turísticos, um viajante de sala de estar que nunca se aventurou além dos limites de sua própria cidade natal.

Aplicação das correspondências

Podemos começar a adquirir experiência em trabalhos de magia aplicando as poucas correspondências de amostra que sempre incluímos. Imagine um círculo ao redor de você, e esse círculo está claramente marcado e dividido em quatro quadrantes, conforme os pontos cardeais. A leste, num ponto da circunferência, visualize uma espada flutuando no ar, com a ponta para cima. Você pode imaginar qualquer tipo de espada, embora a que se usa com mais freqüência é uma espada com o punho em cruz. Ou, então, é possível substituir mentalmente essa e as outras armas mágicas por uma carta do Tarô*, no caso o ás do naipe correspondente.

Agora, aproxime‑se da circunferência do círculo, até se encontrar próximo da arma imaginada, e comece a construir as outras correspondências anotadas na coluna. Pode‑se fazê‑lo em qualquer ordem, pois o propósito é conseguir, em seu interior, despertar a sensação de todas essas correspondências juntas.

Portanto, enquanto você está parado no leste, diante da espada, imagine‑se iluminado por uma luz amarela, sinta o ar se mover ao seu redor, ouça os pássaros chilrear saudando a alvorada e perceba o despertar urgente da vida na primavera; sinta‑se como uma criança, e também cheio de fé na glória e na beleza de todas as coisas; perceba o pulsar da vida. Permaneça assim por um breve período (no máximo dez minutos), depois volte para o centro do círculo e reassuma seu estado de consciência normal.

Repita esse procedimento, sucessivamente, em cada quadrante. Pode ser proveitoso continuar esse exercício durante algumas semanas. Em cada sessão você. pode experimentar os quadrantes sucessivamente, ou pode se concentrar apenas num único quadrante em cada sessão diária. Entretanto é importante desenvolver todos os quadrantes, e não se concentrar apenas em um ou em outro, que podem inspirar maior afinidade. Se você pretende se concentrar especialmente num quadrante mais que nos outros, este deverá ser o quadrante pelo qual você se sente menos atraído, pois dessa forma você poderá restabelecer seu equilíbrio psíquico. A concentração no aspecto que nos aparece mais fácil é desaconselhável; embora, no começo, isso possa parecer mais estimulante e de maior progresso, levará inevitavelmente a um desequilíbrio da personalidade.

Neste estágio de nossos estudos, não utilizamos as grande palavras e nem os nomes dos mágicos, que costumam excitar uma curiosidade mórbida e provocar especulações supersticiosas dos leigos. Estes virão, mas são apenas acessórios completamente lógicos, razoáveis, que, como todas as boas ferramentas, poupam tempo e complicações. E queremos também acrescentar, sem demora, que nenhum deles teria qualquer utilidade sem o presente trabalho de preparação da construção de reações conscientes nos quadrantes, com base nos quadros de correspondências.

A idéia de que um novato possa, sem querer, ou mesmo presunçosamente, pronunciar uma palavra mágica ou rabiscar um símbolo místico, e ser imediatamente punido por terríveis forças sobrenaturais, pertence apenas à imaginação dos autores de ficção científica. Podemos conseguir da magia apenas o quanto colocamos nela. Nos estágios iniciais, uma pessoa não contribui com muita coisa, sendo, pois, improvável que consiga reações de forças incontroláveis. (É oportuno lembrar que uma pessoa neurótica ou instável não deve mexer com o oculto sem a supervisão de uma pessoa experimentada, para que não aconteçam dissociações descontroladas da percepção.)

Entretanto o mago experiente tem a possibilidade de conseguir mais do que aquilo com que contribuiu. O resultado é proporcional à doação, da mesma forma que um arqueiro pode impulsionar uma flecha com força infinitamente maior quando usa um arco, do que lançando‑a apenas com a força muscular do braço.

Durante as primeiras semanas ou os primeiros meses de estudo, é suficiente conseguirmos aumentar nossa experiência no que se refere aos quadrantes, sem auxílios artificiais, os quais apenas serviriam para criar obstáculos e confusões nesse estágio, ou estimular atitudes supersticiosas. Esses períodos de trabalhos com os quadrantes podem ser utilizados para meditar sobre as qualidades de cada um, e descobrir mais atributos ou correspondência na parte mais íntima de nosso interior.

Acessórios

Se você dispõe de um local adequado, pode começar a procurar os objetos para cada quadrante. Por exemplo, você pode comprar pequenas lamparinas a óleo, copos coloridos para colocá‑las, nas cores apropriadas para cada quadrante. Você pode também ter quadros, um para cada quadrante, representando as quatro estações, ou os quatro elementos, ou, ainda, o amanhecer, o meio‑dia, o entardecer e a meia‑noite.


Você pode comprar os quadros ou também pintá‑los pessoalmente. Podem ser realistas, abstratos ou simbólicos. De qualquer forma, é aconselhável evitar o excesso de peças. É preferível ter poucos, escolhidos e arrumados com bom gosto, pois assim se evitará aquele clima desagradável de antiquário.

Você também poderá arrumar as quatro tradicionais armas mágicas. Conforme a tradição, a espada deve ser recebida ou conquistada; a vara mágica deve ter um desenho exclusivo, e deve ser feita por você pessoalmente, sem que qualquer pessoa saiba, ou possa vê‑Ia; a taça deve ser um presente de alguém que ama você; e o disco deve ter um desenho que represente sua própria e pessoal compreensão do universo. Como a vara representa sua própria e verdadeira vontade espiritual, jamais deve ser mostrada a outras pessoas, a não ser em circunstáncias excepcionais, e deve permanecer oculta num local secreto, envolvida em seda; outras varas podem ser compradas ou feitas, para serem utilizadas como substitutas externas.

Os nomes mágicos

Depois de adquirir, por meio da prática, uma compreensão suficiente do que representam os quadrantes em seus múltiplos níveis e aspectos, podemos proceder à formulação de importantes nomes mágicos, ou nomes do poder. Existem dois nomes principais para cada quadrante. Um desses é o nome de Deus, quando Dele nos aproximamos sob um determinado aspecto, e o outro é o da inteligência arcangelical. que, por tradição, acreditamos estar governando cada quadrante. Podemos arrolá‑los como segue:
LESTE SUL OESTE NORTE
IHVH ADNI AHIHA GLA
Rafael Miguel Gabriel Ariel
Os nomes de Deus são todos hebraicos, e são pronunciados com a mesma força em cada silaba, que deve ser um pouco prolongada: li‑a‑uu‑ê; A‑do‑na‑ü; E‑eh‑ü‑ê; e A‑gla. Os que seguem as antigas tradições, freqüentemente visualizam as quatro letras de cada nome em caracteres hebraicos em luz dourada, diante deles em cada quadrante.

Por outro lado, como atualmente em sua maioria os adeptos da magia branca são cristãos que acreditam que, num certo período da História, Deus se encarnou numa forma humana como Jesus, o Cristo, e que permanecerá conosco "até o final dos tempos", não existem muitas razões para se considerar Deus do mesmo ponto de vista do misticismo judaico medieval ‑ que é a origem da maior parte do simbolismo mágico ritual. Empregando um antigo ditado, não vale a pena conservar a água do banho junto com o neném.
Portanto, embora mantendo os nomes tradicionais, que são ideografias da aura, poderemos talvez modernizar nosso conceito de Deus, visualizando Deus como Homem (a saber, como o Cristo) em cada quadrante, em lugar de um remoto potentado oriental, do qual só poderíamos nos aproximar através de símbolos abstratos ou de muitos intermediários hierárquicos.

Cada um pode escolher as formas utilizadas a partir de relatos nos evangelhos. Para ajudar nessa escolha, entretanto, podemos considerar o Cristo como: o guia, no leste; protetor, ao sul; companheiro, a oeste; e mestre ao norte. Essa, porém, não é a única maneira de fazer sua escolha. Talvez você prefira dar ênfase ao ciclo do tempo no círculo mágico; nesse caso, será apropriado escolher o Cristo criança, para o leste; o Cristo evangelizador triunfante, para o sul; o Cristo crucificado, no supremo sacrifício de amor, para o oeste; e o Cristo oculto, ressuscitado e em ascenção, para o norte.

Explicação dos nomes de Deus

Existem múltiplas idéias nos tradicionais nomes de quatro letras, mas podemos fazer um breve resumo. Ihvh é um nome utilizado no Velho Testamento e que os judeus devotos consideram tão sagrado que não deve ser pronunciado; parece, aliás, que a pronúncia correta é desconhecida.

Antigos estudiosos, ignorando as sutilezas da tradição hebraica, pronunciaram esse nome como Jeová; já os estudiosos modernos da Bíblia preferem a forma Iavé. Entretanto, de um ponto de vista esotérico, parece mais apropriado considerá‑lo um nome composto apenas de vogais. O hebraico antigo, quando escrito, era constituído unicamente de consoantes, mas são as vogais que dão vida aos caracteres escritos; por conseguite, a Deus (o Verbo, ou Logos), parece mais apropriado dar um nome apenas de vogais, quando considerado em Sua essência, invisível, mas presente em toda parte, dando vida à Criação.

Adni, freqüentemente traduzido como Adonai, significa apenas Senhor. Esse é o nome que substitui Ihvh quando um judeu devoto lê a Bíblia em voz alta. Poderia, portanto, representar Deus manifesto diante de Suas criaturas, Senhor, Protetor, Sustento e Criador.

MM, que, em geral, se escreve Eheieh, é o nome que Deus revelou a Moisés no arbusto em chamas. Em geral é traduzido como "Eu Sou", ou "Eu Sou o que Sou". Enfatiza Deus como um fato sempre presente, que é, que era, e que sempre será ‑ o eterno companheiro de todas as Suas criaturas.


Agiu é uma forma especial de código secreto, porque é um nome composto com as letras iniciais de uma sentença, "Ateh Gedulah Le óhlahm Adonai", que significa "Tu és poderoso para sempre, ó Senhor". Essa construção artificial, que implica uma análise para se chegar à compreensão, é um nome apropriado para o quadrante setentrional, o qual, entre outras coisas, simboliza aquilo que está oculto (o Sol da meia‑noite, etc.), a lei e a compreensão.

Vibração dos nomes

Agora já podemos acrescentar esses quatro nomes aos nossos exercícios de formulação dos quatro quadrantes. Os nomes, mais do que pronunciados num tom de voz normal, deveriam ser "librados". A postura tem um papel muito importante para produzir a vibração tonal necessária; temos de assumir uma postura equilibrada. Podemos conseguir isso mais facilmente colocando os pés na forma da letra T, com o pé direito atrás do pé esquerdo. As mãos são colocadas postas sobre o coração, com os dedos apontando para o alto, mantendo uma leve pressão. Isso resulta numa posição como a de acólitos em algumas cerimônias religiosas, mas, de fato, é muito mais que uma pia atitude, porque se trata do remanescente de uma ioga pouco conhecida no Ocidente. Produz equilíbrio físico e mental, e também abre a cavidade torácica enquanto,, simultaneamente, lhe confere uma leve pressurização.

Os nomes são pronunciados com "respiração forçada". Imagine que as palavras devam ser expelidas, da boca, contra um meio mais denso que o ar; usando uma analogia um tanto esquisita, como se você fosse obrigado a lançar suas palavras através de melado.

Um pouco de prática logo mostrará quando você alcança a intensidade correta. A voz se tornará mais sonora, e também ajudará muito emendar as palavras entre si, enfatizando ao máximo as vogais e as consoantes, sobretudo os sons com "m" e "n". Pode‑se praticar com qualquer tipo de texto para desenvolver a técnica. A vibração das palavras corretamente pronunciadas pode ser sentida em algumas partes do corpo, especialmente nas palmas das mãos e nas solas dos pés.

Quando a técnica já pode ser dominada com naturalidade, sem distrações causadas por acanhamento, você deve experimentá‑la com os nomes divinos. Depois de criar a atmosfera necessária num determinado quadrante, enquanto você permanece na postura recomendada, vibre o nome de Deus; sinta Sua presença abençoando e protegendo você, e construa uma imagem do aspecto de Deus com o olho da mente, ou, então, veja Seu nome sob luz dourada. Sinta como suas imagens já construídas ganham em vida e em poder quando você invoca o nome Dele.

Depois de praticar durante algum tempo, a mente se toma tão condicionada que, quando você vibra o nome, as imagens e os sentimentos associados àquele determinado quadrante já deverão fluir automaticamente em sua consciência. Nesse caso, você terá construí= do uma palavra mágica, uma palavra ou um nome que, devido aos reflexos condicionados adquiridos com a meditação e a prática, desprenderão energia psíquica de um determinado tipo controlado, quando utilizada com intenção consagrada.

Poderes das armas mágicas

É consolidando poderes psíquicos específicos e realizações em ações, objetos, sensações e sons específicos que o mago desenvolve os poderes de suas armas mágicas. Por exemplo, sua espada mágica não é realmente a arma que ele pode manusear em seu templo físico, mas a espada interior, espiritual/intuitiva/mental/emocional, desenvolvida através de demoradas meditações, visualizações e a prática física de exercícios dedicados ao quadrante oriental.

Isso não deve encorajar o desenvolvimento do "mago de poltrona", que não se esforça para conseguir pessoalmente armas mágicas fisicamente reais. 0 manuseio efetivo da espada, a sensação de seu peso, o fato de limpá‑la e guardá‑la são importantes, pois servirão para "aterrar" todas as realizações importantes, como nenhum outro fato poderia conseguir. Os atos e objetos rituais mágicos são como um circuito ressonante de rádio: a ação/objeto estimula a reação psíquica, que desenvolve um maior poder de sugestão na ação/objeto, que, por sua vez, estimula uma maior reação psíquica, a qual desenvolve um maior poder na ação/objeto, e daí por diante.

A energia ativa (espada), a vontade espiritual (vara), a compaixão e a receptividade psíquica (taça) e a compreensão (disco) do mago se desenvolvem, assim, sob direção divina, em quatro aspectos.

Entretanto a magia não se exerce num vácuo psíquico. Ao abrir a percepção para outros planos de existência, que os ignorantes pensam ser completamente subjetivos, você naturalmente entrará em contato com os habitantes daqueles planos, cujo foco de percepção se encontra normalmente numa faixa diferente do espectro de percepção em que se encontra o foco de percepção dos humanos. No contato com essas entidades, conseguiremos guia e proteção, invocando a inteligência arcangelical própria de cada quadrante.

0 método para vibrar os nomes arcangelicias é o mesmo que utilizamos para os nomes de Deus. Cada sílaba é pronunciada separadamente, prolongando bastante as vogais: Raa‑faa‑eel; Mü‑gueel; Gaabrü‑eel; Aa‑rü‑eel.

Imagens telesmáticas

Ao vibrar os nomes em cada quadrante, é comum visualizarmos uma figura antropomórfica (a figura convencional, com vestimenta comprida e grandes asas, serve muito bem ao caso). Devemos entender que essas imagens, junto com todas as imagens mágicas desenvolvidas na imaginação criativa, são, por si, apenas imagens, como slides. Entretanto, as "imagens telesmáticas", para chamá‑las com seu nome técnico, atuam como focos para a entidade efetiva num outro plano, de maneira que sua presença possa ser percebida na consciência do postulante.

A visualização mágica funciona em dois sentidos. Funciona positivamente, pela habilidade do mago em formular imagens e mantê‑las firmes em sua mente, até por um período relativamente longo, quando isso é necessário (muitas vezes de uma a duas horas); e também funciona negativamente, pela habilidade em deixar que as imagens tenham vida e movimento próprios e de observá‑las enquanto isso acontece, ou de conversar com elas, mantendo um delicado equilíbrio entre deixá‑las estáticas ou rígidas demais, e serem levadas para a difusão ou o caos.

Os arcanjos podem ser visualizados com vestimentas nas cores de seus quadrantes, cada um com seus próprios atributos simbólicos. Rafael é um guia de viajantes e aparece na Bíblia como guia de Tobias. Miguel é representado, em geral, matando o dragão da maldade com uma longa lança. Gabriel é o anjo da Anunciação, e freqüentemente~ tem uma trompa na mão. Os três são freqüentemente representados na arte religiosa, e recomendamos uma pesquisa que englobe os vários quadros e as lendas e também os episódios bíblicos que se referem a esses três Arcanjos. O mago praticante não deveria esquecer a biblioteca mais próxima; seria errado, porém, desperdiçar nela todo seu tempo e todas as suas energias.

Ariel é o menos conhecido. Seu nome deriva de uma palavra hebraica que significa luz, e sua luz deriva da luz das estrelas, às quais se associa no quadrante setentrional. Pode ser representado como uma entidade escura, de feições já envelhecidas, carregando um grande livro aberto e com um dedo apontando para as estrelas.

Depois de formular os quatro quadrantes do círculo ou templo mágico e tê‑los estabelecido em nosso íntimo como um aspecto particular da realidade presidida por Deus, estando cada um sob a jurisdição de um dos ministros arcangelicais de Deus, podemos agora passar a descrever a mobília básica de nosso círculo mágico, e que se resume no altar e nas colunas.

3/ O altar e as colunas

No sentido filosófico, as ramificações simbólicas das colunas são muito amplas. Entretanto, sua essência prática é simples, pois representam o portal para os planos interiores.

Suas cores podem variar, porém são sempre duas colunas, sendo uma de cor clara (ou brilhante) e a outra escura. Representam a dualidade que existe em todas as coisas criadas; por conseguinte, pode‑se construir, para as colunas, um quadro de correspondências, tal como para os quadrantes, bastante extenso. O estudante pode começar com as que estão anotadas a seguir, embora cada mago deva compor sua própria lista de realizações.

COLUNA ESCURA
Negativo Feminino Noite
Passivo
Receptor Forma Pingala Yin
Boaz
COLUNA CLARA
Positivo
Masculino
Dia
Ativo
Emissor
Força
Ida
Yang
Jachin
As três últimas correspondências são os nomes desses princípios nos idiomas hindu e chinês, e na instrução maçónica.

As cores costumeiras para as duas colunas são o preto e o prata e, embora pudéssemos visualizar cores diferentes ao formular colunas em cada quadrante (respectivamente, nas cores ativas e passivas, que, em geral, são: para o leste, azul/amarelo; para o sul, carmesim/escarlate; para o oeste, prata/azul; para o norte, marrom/verde), não é muito prático abarrotar o templo com colunas de várias cores, bastando um único par nas cores preto e prata. Os pormenores da construção estão sugeridos no Apêndice.

Exercícios com as colunas

Também nesse caso, como acontece com os quadrantes e, aliás, com qualquer objeto do templo mágico, as colunas serão de escassa utilidade, mesmo que sejam muito bonitas e coloridas, até que comecemos a trabalhar com elas. Podemos fazer isso de três maneiras: Primeiro, meditando sobre as colunas, individualmente, aumentando nossa profundidade e amplitude de percepção do que elas representam; segundo, ficando parados entre as duas colunas, transformando nossa própria coluna vertebró, e suas extensões imaginárias, além da cabeça e dos pés, numa terceira coluna, central; e, finalmente, visualizando as colunas como um pórtico de templo egípcio (é importante imaginar um dintel ligando as duas colunas), e atravessando‑o devagar, elevando a percepção.

É melhor concluir os exercícios na primeira modalidade antes de passar para os da segunda e terceira. Por outro lado, quando o estudante assim desejar, poderá efetuar esses exercícios simultaneamente com os trabalhos nos quadrantes. Basta um pouco de imaginação para poder combinar os exercícios, e o estudante inteligente e perceptivo encontrará os meios para fazê‑lo.

O primeiro exercício, as meditações sobre cada coluna, levará à compilação de longas listas de atribuições, e anotações de associações complexas de idéias. Será ótimo incluir meditações sobre a terceira e invisível coluna do meio, que, finalmente, será formada pelo próprio praticante. Ela representa a consciência e o caminho do meio entre opostos, simbolizados pelas duas colunas laterais. Os estudantes de Cabala encontrarão um farto simbolismo disponível nesse simples glifo.

Contrapartes imaginárias

O segundo exercício aborda essas realizações num nível mais prático. Coloque‑se fisicamente entre a coluna preta e a coluna prateada, construindo suas contrapartes imaginárias dentro de sua própria aura e também formulando a coluna central em seu íntimo. A capacidade de reter essa imagem pode, em breve, provocar sensações de poder psíquico ou mágico; mais ainda em pessoas que estudam a Cabala e que costumam formular as esferas da Arvore da Vida nas três colunas. A prática de exercícios relativamente simples, mas de importância fundamental de respiração/mentalização, como o da técnica da fontanela (p. 55), também pode acelerar esse desenvolvimento.

Portão para um pais oculto

O terceiro exercício, que inclui o movimento físico associado à visualização e receptividade subjetivas, é mais um exercício mágico ritual no sentido completo da expressão. Antes de começar, é importante estar "consciente": por exemplo, fazer uma preparação com alguns minutos de relaxamento, seguidos por alguns exercícios de respiração ritmada* com um pouco de meditação. Em seguida, aproxime‑se o mais lentamente possível das colunas, como se você estivesse se aproximando do portão desconhecido para um país oculto o que você realmente está fazendo. Perceba intensamente as duas colunas e o dintel superior enquanto você os atravessa, e sinta a mudança de consciência que se opera em você.

Pare um pouco além das colunas e depois dê um passo atrás, voltando a atravessar, percebendo as mudanças mais uma vez, e voltando ao seu estado de consciência normal. A prática paciente e a vontade de "se apressar devagar" conseguirão os melhores resultados. Esse exercício simples, bem executado, pode proporcionar resultados de grande alcance e pode até se desenvolver como uma técnica para uma completa projeção astral.

Neste último exercício, pode ser útil formular um "guardião da entrada" e uma "senha", que será pronunciada silenciosamente, ou talvez, um sinal visual. Ao pronunciar a senha, ele abrirá o portal para você, dando‑lhe guia e proteção no outro lado. A senha ou o sinal servem para a sua segurança pessoal. Ao se produzir a associação de idéias, evitam que sua mente seja inundada com material psíquico espontâneo ou inconsciente no momento inoportuno de sua vida cotidiana. A prática habitual de utilizar esse estratagema todas as vezes que você tenta elevar a percepção confere‑lhe um controle automático embutido em sua mente consciente, eliminando qualquer interferência de outras entidades e outros planos.

Altar: foco da percepção

O outro item principal da mobília do templo. é o altar, e representa o ponto focal da percepção do templo ou círculo. Pode ter várias formas, mas a mais tradicional é a de um armário, tipo guarda‑louças, quadrangular, de altura igual ao dobro da largura ou profundidade. A forma ideal é a de um cubo duplo, ou dois cubos sobrepostos, e sua altura terá aproximadamente um metro (três pés). Em geral, sua cor é preta, com um pano branco na superfície superior. As vezes, há também um pano inferior, que poderá ser preto ou da cor apropriada para o trabalho em questão, com uma borla em cada canto, representando os quadrantes.


É tradição (e também é conveniente) guardar todos os objetos menores do ritual no interior do armário do altar ‑ as armas mágicas, o tun'bulo, o incenso, as lamparinas, os rituais, os símbolos para meditação, os quadros, etc.

A superfície do altar deve estar livre de qualquer objeto no começo e no fim dos trabalhos e, durante os mesmos, pode acomodar apenas os objetos que servem para esse trabalho ou para a meditação. Isso está em conformidade com sua função como foco da atenção no círculo.

Normalmente a posição do altar é no centro do círculo, quando 0 templo não está sendo utilizado ou durante trabalhos gerais. Durante rituais que se referem a um determinado quadrante, o altar pode ser colocado nesse quadrante. Citamos como exemplos principais destes ritos os que se celebram durante as diferentes festividades sazonais; leste, para o equinócio de primavera; sul, para o solstício de verão; oeste, para o equinócio de outono; e norte, para o solstício de inverno.

Alguns magos preferem ficar no centro, formando um altar ou ponto focal; nesses casos, o altar ficará a leste, porque, sendo esse o quadrante no qual nasce o Sol, é a direção de maior luz simbólica.

Posição das colunas 

As colunas têm, em geral, uma posição relativa ao altar, e as preferências podem variar. Alguns situam o altar diante das colunas, como um símbolo de sacrifício antes de penetrar nos planos mais elevados. Essa disposição é apropriada sobretudo nas cerimónias de iniciação, quando o postulante é iniciado pela primeira vez rios mistérios mágicos.

Uma outra maneira consiste em colocar as colunas em cada lado do altar, de forma a situar‑se diretamente entre estas. Assim, conferimos ênfase ao perfeito equilíbrio de forças aplicadas a qualquer coisa que se encontre sobre o altar, sendo essa a colocação mais apropriada para consagrar talismãs, sacramentos ou outros símbolos.

A terceira maneira consiste em colocar as colunas nos dois lados do altar, um pouco mais em frente, de forma que o mago, quando se encontra diante do altar, está entre as duas colunas. Esse método é especialmente indicado para despertar a percepção.

Poderíamos escrever muito mais sobre os pormenores das diferentes posições da mobilia ritual, porém é mais apropriado que cada estudante efetue suas próprias experiências e descubra a maneira mais favorável de funcionamento. Esse é o treinamento ocultista realmente precioso, posto que a leitura de livros a respeito constitui uma forma inadequada de aprendizagem; um livro só pode indicar as linhas gerais e elementares de um princípio, e oferecer algumas indicações para uma possível e frutífera investigação pessoal.

4/ A vestimenta

Da mesma maneira que um templo mágico é mais impressivo que um círculo mágico temporário, pois proporciona a possibilidade de se colocarem as cortinas permanentemente, nas cores apropriadas, em cada quadrante, também poderá ser mais sugestivo se o estudante de magia tiver uma vestimenta especial para utilizar durante o trabalho.

0 conjunto completo inclui: a túnica, o manto externo, sandálias, a cobertura para a cabeça, a faixa, a salva e o anel.

A peça principal é a túnica, que, em geral, é preta para os iniciados comuns e dourada para os adeptos. 0 significado desses termos é o seguinte: um adepto é alguém capaz de formar seus próprios contatos com os representantes da hierarquia planetária, enquanto que um iniciado não sabe fazê‑lo e depende de um adepto para ser guiado no sentido de estabelecer tais contatos. A túnica é uma peça simples, comprida até os tornozelos, com mangas compridas e largas. Algumas pessoas vestem batinas, o que é uma vantagem, pois podem ser compradas prontas; o inconveniente é que só existem pretas. A túnica é uma veste que cobre desde o pescoço até os pés.
A faixa é, em geral, de corda branca com uma borla em cada extremidade. É uma peça importante do ponto de vista ritual, porque, entre outras coisas, representa o círculo mágico individual. Durante a iniciação, a faixa é colocada no pescoço do postulante como um cabresto, e ele só receberá autorização de colocar a faixa na cintura quando for aceito como iniciado dentro do grupo em questão.

As sandálias também são importantes, pois representam a habilidade de andar em planos além do físico. Jamais devem ser usados sapatos comuns num templo ou sobre o pano com o círculo mágico. Durante a prática, usam‑se chinelos, com meias da mesma cor, em lugar de sandálias abertas. A cor pode ser vermelha (para adeptos, simbolizando os poderes mágicos) ou preta (para iniciados).

Uma vantagem psicológica

Ficar apenas com as roupas de baixo é uma vantagem psicológica, mas nem sempre isso é conveniente. Entretanto, quando os homens continuam com suas calças e camisas sob a vestimenta mágica, os colarinhos deveriam ser dobrados para dentro, eliminando‑se as gravatas, e as pernas das calças deveriam ser enfiadas nas meias, ou presas de alguma outra maneira, pois não existe nada mais amadorístico do que colarinhos saindo da gola da vestimenta, e calças aparecendo por sob a túnica e sobre os chinelos. Devem ser tirados também os adornos metálicos como relógios de pulso, anéis, pulseiras, brincos, etc.; o uso da aliança é permitido. Existe ainda a tradição de jamais se levar dinheiro para o interior do templo.

A nudez durante os ritos não é uma tradição mágica, pois não tem qualquer vantagem e, sim, muitas desvantagens ‑ como, aliás, algumas seitas pagãs e até mesmo antigos cristãos tiveram de descobrir por sua própria experiência.

O manto 

0 manto externo é opcional, embora nos grupos rituais muitas vezes se considere um emblema do cargo; o manto é um atributo do cargo, mais do que uma peça utilizada permanentemente por um indivíduo. Por exemplo, se um grupo celebra um ritual importante que exige oficiais do leste, do sul, do oeste e do norte, haverá uma vestimenta amarela, uma vermelha, uma azul e uma verde à disposição de cada oficial. Por outro lado, o oficiante pode usar uma vestimenta de cor diferente, conforme a natureza do rito.

Entretanto, os mantos são caros e de feitio difícil, pois exigem um material pesado, de boa qualidade e, em geral, têm símbolos bordados nas costas. Vale a pena, entretanto, tentar a confecção de um manto, porque usar um traz grandes vantagens psicológicas, e a cor e o feitio podem ser de sua escolha pessoal. Normalmente os mantos têm uma gola alta, ou um capuz, que pode ser puxado sobre a cabeça para meditar ou em períodos de inatividade exterior.


Evidentemente, nas regiões de clima quente, um manto pode vir a ser mais incómodo que útil. Nas regiões frias, ou para trabalhos ao ar livre, pode‑se recorrer a uma adaptação vantajosa, utilizando‑se uma japona com capuz, cuja aparência é completamente normal para observadores de passagem, mas que deverá ser utilizada apenas para trabalhos mágicos. O significado da japona só é conhecido por quem a usa. Essas peças de vestuário são muito úteis para as pessoas que desejam trabalhar ao ar livre, em locais especiais e magnéticos, e n princípio destaca especialmente o fato de que apenas o uso exclusivo e dedicado confere o poder ao vestuário mágico, e não seu modelo ou aparência estranha.

Uma faca, uma vara, um frasco de água e um compasso são as quatro armas mágicas e, com um pouco de imaginação criativa nesse sentido, é possível enveredar por uma investigação muito satisfatória dos pontos e das linhas de força de uma determinada região.

A cobertura ritual para a cabeça pode variar bastante. Pode‑se usar uma fita ou faixa simples, entretanto o melhor e o mais prático é o nemyss*, cuja confecção é muito fácil (veja no Apêndice). Pode ser de qualquer cor e normalmente tem a mesma cor da vestimenta. As vezes é completado por um véu. Alguns preferem não usar uma cobertura para a cabeça.

A salva

A salva indica o tipo de trabalho que você está efetuando. É apenas uma espécie de insígnia, presa numa fita ao redor do pescoço e suspensa à altura do coração, feita de metal ou de pergaminho. Pode ostentar o nome mágico, ou as aspirações do mago, ou o símbolo do grupo no qual este trabalha. Portanto, pode ser, por exemplo, um tipo de rosa‑cruz. Os desenhos podem variar, mas, em geral, de acordo com a idéia de que os dois lados da salva representam, num certo sentido, as duas colunas; mas, num sentido individual, pode‑se pensar na salva como um altar pessoal, na faixa como um círculo individual, e a cobertura para a cabeça, a vestimenta e as sandálias como o teto, as paredes e o chão do templo individual.

Como representa uma intenção pessoal, o desenho deve ser decidido pessoalmente, e não é necessário insistirmos em outros detalhes. Alguns ritualistas costumam usar uma estola ao invés da salva, ou então junto com esta. Basicamente, a estola é uma fita, de razoável largura, que, passando por trás da nuca, fica com as duas extremidades soltas sobre o peito do mago. Às vezes, essas extremidades são enfiadas na faixa.

O anel

Finalmente, o anel representa a vontade do mago, sendo colocado no dedo indicador da mão direita (quando o mago é destro). Assim, de certa forma, tem as mesmas funções da vara, e alguns magos dispensam seu uso. Entretanto, é um objeto útil porque, como todas as varas empregadas são apenas substitutas de uma vara secreta, como já foi explicado, o uso do anel pode ser considerado uma espécie de mandato do dedo que se apóia na vara substituta, indicando 0 verdadeiro poder oculto que representa. Tal como a vara efetiva, o anel pode ter desenho e cor pessoais, e os mais impressionantes são confeccionados com broches soldados sobre anéis simples.

Não é necessário que o anel tenha grande valor, pois os fatores importantes são a intenção e a dedicação e, assim como em todos os trabalhos mágicos, torna‑se necessário encontrar um equilíbrio entre a sovinice e o extravagante desperdício. Isso é demonstrado pela tradição das verdadeiras bruxas, dos tempos antigos, que, não podendo adquirir objetos caros, conseguiam transformar simples artigos domésticos, como facas, vassouras e caldeirões, em poderosos instrumentos das artes mágicas.

Os porões podem ser adequados (de fato, muitos rituais antigos eram celebrados em grutas), mas nas casas modernas nem sempre existe um porão. Resta mencionar que, nas construções modernas, os tetos costumam ser baixos, e talvez seja necessário modificar alguns gestos ritualistas mais amplos com a vara ou a espada (esta última, por exemplo, pode ser substituída pela adaga).

Entretanto não devemos nos esquecer de que os antigos templos dos mistérios, absolutamente, não eram espaçosos. A maior parte do trabalho importante se desenrola na mente, e pode ser executado em pé ou sentado, sem uma necessidade absoluta de grande liberdade de movimentos.

Assim, pensando em termos de um templo portátil ou pré‑fabricado em concreto, este pode ter dimensões reduzidas, como, por exemplo, dois e meio metros quadrados. O concreto pré‑fabricado é mais vantajoso que a madeira, considerando‑se o isolamento acústico, o controle de temperatura e a prevenção de incêndios, mas apresentará dificuldades em qualquer caso, a não ser que a estrutura básica receba um bom acabamento; isso significa revestimento, calafetação e instalações elétricas, além de dispositivos para manter longe os ratos, que adoram roer velas para complementar suas refeições.

Como fazer seu próprio templo

Podemos conseguir uma realização profunda e arquetípica construindo nosso próprio templo, começando pela limpeza do terreno, seu nivelamento e, depois, colocando sólidas fundações, medidas com o esquadro e o compasso*. Numa área reduzida, de apenas oito pés quadrados, podemos colocar o equipamento básico de colunas e altar, e ter espaço para até quatro pessoas sentadas, uma em cada canto.

Essas considerações significam que, ao usarmos um aposento interno, suas proporções podem ser bastante modestas; podemos até utilizar uma despensa, tomando as devidas precauções para obter boa ventilação e acesso.

Da mesma forma, podemos separar uma parte de um a osento. Uma sala em L se presta muito bem para esse propósito. E~sempre melhor quando a divisão pode ser permanente, mas quando temos de optar por uma solução provisória, podemos fechar um canto com uma cortina; assim, quando corremos a cortina, o canto se torna o ponto focal de toda a sala.


Construção e localização

8/ de um templo

Um dos maiores problemas para os trabalhos de magia ritual é encontrar um local adequado. Mesmo quando temos parentes e vizinhos compreensivos, as condições de vida podem estar meio apertadas, especialmente no ambiente urbano. Assim, além do sacrifício do tempo que precisamos dedicar a esse trabalho, existe também o sacrifício do espaço, que pode ser muito mais difícil, pois o espaço reservado à magia não deve ser utilizado para outras finalidades.

Entretanto o poder pode ser desenvolvido à custa de sacrifício, porque, quando renunciamos a alguma coisa em um plano, esta será devolvida num outro plano ‑ o aspecto oculto do Princípio da Conservação de Energia, de Newton.


O local ideal é um aposento grande, com um teto suficientemente alto para podermos erguer tranqüilámente uma espada ou uma vara. Além do mais, deve ter uma temperatura estável e, tanto quanto possível, ser à prova de som.

Os ruídos da civilização

Essas exigências dispensam qualquer explicação. É incômodo e irritante efetuar um trabalho psíquico Com muito calor, aumentado pela vestimenta ritual. Da mesma forma, um trabalho psíquico sob frio intenso pode resultar ainda mais difícil.

0 acabamento acústico não é absolutamente essencial quando 0 local é isolado. Em caso contrário, porém, torna‑se necessário por dois motivos: primeiro, evitar que pessoas estranhas ouçam o que está acontecendo, e segundo, para evitar os irritantes ruídos da civilização, como rádios, veículos, construções ou descargas de banheiros.

Antes que o leitor desanime completamente, precisamos dizer que, depois de muitos anos de experiência em magia, ainda não encontramos as condições ideais para trabalhar, mas, mesmo assim, apesar das dificuldades, já conseguimos excelentes resultados. Quando existe a vontade, existe o jeito, e isso vale tanto para a magia como para qualquer outra coisa.

Transformação do sótão ou do porão

Quando não existe a possibilidade de se dedicar todo um aposento ao templo, podemos pensar em termos de reforma do sótão ou do porão, ou na construção de um templo portátil. Todas essas possibilidades têm suas vantagens e suas desvantagens. Os sótãos freqüente­mente têm formas irregulares, com vigas expostas em ângulos incô­modos; além disso, o controle da temperatura pode se tomar difícil, a não ser que a reforma seja efetuada por um profissional.

Os porões podem ser adequados (de fato, muitos rituais antigos eram celebrados em grutas), mas nas casas modernas nem sempre existe um porão. Resta mencionar que, nas construções modernas, os tetos costumam ser baixos, e talvez seja necessário modificar alguns gestos ritualistas mais amplos com a vara ou a espada (esta última, por exemplo, pode ser substituída pela adaga).

Entretanto não devemos nos esquecer de que os antigos templos dos mistérios, absolutamente, não eram espaçosos. A maior parte do trabalho importante se desenrola na mente, e pode ser executado em pé ou sentado, sem uma necessidade absoluta de grande liberdade de movimentos.

Assim, pensando em termos de um templo portátil ou pré‑fabri­cado em concreto, este pode ter dimensões reduzidas, como, por exemplo, dois e meio metros quadrados. 0 concreto pré‑fabricado é mais vantajoso que a madeira, considerando‑se o isolamento acústico, o controle de temperatura e a prevenção de incêndios, mas apresen­tará dificuldades em qualquer caso, a não ser que a estrutura básica receba um bom acabamento; isso significa revestimento, calafetação e instalações elétricas, além de dispositivos para manter longe os ratos, que adoram roer velas para complementar suas refeições.

Como fazer seu próprio templo

Podemos conseguir uma realização profunda e arquetípica cons­truindo nosso próprio templo, começando dela limpeza do terreno, seu nivelamento e, depois, colocando sólidas fundações, medidas com o esquadro e o compasso*. Numa área reduzida, de apenas oito pés quadrados, podemos colocar o equipamento básico de colunas e altar, e ter espaço para até quatro pessoas sentadas, uma em cada canto.

Essas considerações significam que, ao usarmos um aposento interno, suas proporções podem ser bastante modestas; podemos até utilizar uma despensa, tomando as devidas precauções para obter boa ventilação e acesso.

Da mesma forma, podemos separar uma parte de um aposento. Uma sala em L se presta muito bem para esse propósito. E~sempre melhor quando a divisão pode ser permanente, mas quando temos de optar por uma solução provisória, podemos fechar um canto com uma cortina; assim, quando corremos a cortina, o canto se torna o ponto focal de toda a sala.

Com um arranjo desse tipo, é preferível optar por um aposento que não seja muito utilizado durante o dia, pois isso poderia inter­ferir com as forças psíquicos do templo. Mas essa solução provisória poderá ser considerada razoável se utilizarmos um quarto sobressa­lente ou um grande corredor, que não poderá ficar continuamente ocupado pela mobilia ritual.

Um armário ritual

Podemos obter um arranjo parecido com um armário ritual, que, em sua forma mais útil é, em geral, um guarda‑roupa reformado para esse fim ou outro móvel parecido que tenha prateleiras. As pratelei­ras superiores são removidas, e a prateleira central serve como altar, quando as portas estão abertas.

A parte sob a prateleira pode ser fechada com uma cortina, e o espaço sob o altar serve para guardar os símbolos, que dali podem ser retirados e colocados em seus lugares para a cerimônia. No mesmo espaço podem ser guardadas também as roupas e o pano com o cír­culo mágico, que será colocado no chão, e que nessas circunstâncias é especialmente útil.

Um pano grande, com o desenho das configurações elementais e/ou planetárias contribui de maneira eficiente para transformar a atmosfera do aposento, quando colocado no chão, especialmente quando se utilizam também as vestimentas.

A vantagem de um local reservado e exclusivo está em podermos nele entrar sem vestimenta e, sem qualquer preparação prévia, sentir imediatamente a atmosfera envolvente aguçando nossa intuição e penetração psíquica. Portanto um templo completamente equipado poupa tempo e energias e, sem dúvida, é muito conveniente, embora não seja absolutamente imprescindível; qualquer pessoa que conse­gue tirar o máximo proveito dos escassos recursos de que dispõe pode também progredirem seu estudo prático.

Como em outros ramos do estudo esotérico, o importante é dar o passo seguinte, desfrutando das oportunidades disponíveis, mesmo quando parecem escassas. Isso servirá como uma invocação, e as circunstâncias começarão gradativamente a melhorar. Esperar por condições ideais antes de começar a fazer qualquer coisa pode resul­tar numa espera infinita.

Muitos problemas de construção e localização do templo podem ser evitados quando praticamos nossa magia ao ar livre, embora o clima, em geral imprevisível, possa criar outros riscos e incômodos.

Em geral, existe uma certa diferença fie atitude entre os que são atraídos pelos trabalhos em ambientes fechados e os que preferem trabalhar ao ar livre, apesar desses trabalhos serem completamente compatíveis, embora superficialmente diferentes. A primeira maneira tende a ser mais formal e intelectualizada, e a segunda é uma inclinação natural dos místicos da natureza e dos que se sentem atraídos pelo "ofício", como é hoje chamado o reflorescimento de costumes e crenças pagãos; em sua forma moderna, encontra forte respaldo no lado místico e religioso daqueles que se preocupam com a conservação ambiental da natureza.


Um templo ao ar livre

É possível fazer‑se um templo ao ar livre com pedras empilhadas, conforme as diretrizes já dadas para um templo fechado. Num sentido mais amplo, o horizonte é o círculo mágico. É óbvio que os problemas para construir um círculo de pedras podem ser consideráveis. Os problemas diminuem quando pensamos em termos de um recinto de madeira e um círculo de mourões.

Mais uma vez, a desvantagem desse tipo de construção é sua localização. Pode parecer meio esquisita num jardim de periferia, e a curiosidade dos vizinhos pode atrapalhar bastante os trabalhos.

Entretanto existem amplas opções de ritos mágicos menos formais e menos estruturados. Existem muitas fontes de poderes psíquicos que podem ser desfrutadas nos campos e até nos parques urbanos.

Obviamente, existem poderosas forças psíquicas associadas a antigos lugares de culto, muito numerosos na Europa setentrional e nas Ilhas Britânicas, e que não se restringem apenas aos centros turísticos de Stonehenge, Glastonbury, Carnac, etc. Entretanto precisamos avisar que alguns sítios antigos podem ser muito mais poderosos do que imaginamos; por conseguinte, recomendamos prudência e bom senso. Existem lugares excelentes, não‑influenciados por rituais antigos, e que podem ser encontrados; seu bom poder natural servirá para adquirir experiência. Sinta as diferentes vibrações provocadas por bosques diversos e até por árvores isoladas, especialmente as árvores "mágicas" (carvalhos, freixos, espinheiro, e os bosques de salgueiros). Outros lugares, especialmente aqueles com determinados tipos de pinheiros, podem ser esquisitos e até hostis.

Podemos utilizar também outros lugares públicos, especialmente igrejas e catedrais, onde já existe uma atmosfera de devoção, acumulada provavelmente durante séculos, e onde também existem muitas correntes históricas que contribuem, sobretudo quando o prédio se encontra em algum sítio antigo. Até uma construção prosaica como a catedral de São Paulo, em Londres, com suas hordas de turistas, possui seus pontos energéticos, os quais podem ser percebidos pelas pessoas sensíveis.

Marcação de um círculo

Essa maneira de proceder garante que possamos trabalhar sem atrair atenção desnecessária para a nossa pessoa. No campo, a coisa é bastante simples, pois os objetos podem ter aparência totalmente comum. Uma japona com capuz serve como vestimenta; uma varetinha ou uma bengala substitui a vara; uma faca ou uma enxada, e uma caneca ou um cantil podem servir como espada e taça, respectivamente. E uma rosa‑dos‑ventos serve como excelente pentáculo para o norte. Tudo isso e mais um cordão ou faixa formam um equipamento completo para marcar um círculo ‑ em cujo centro nos colocaremos, usando nossa imaginação mágica.

Num local muito público, preferiremos demonstrar ainda menos características exteriores que chamem atenção. Nesse caso, nos aproximamos de um aspecto importante do trabalho mágico, cujo ritual formal está na prática e na preparação. Trata‑se da habilidade de dispensar todas as armas simbólicas visíveis e utilizá‑las por meio de mentalização. Assim, todo mago tem dois conjuntos de armas mágicas, como já disse Eliphas Lévi; um físico, e um imaginário. Este último é realmente difícil de formular sem que se tenha conseguido uma grande familiaridade com o primeiro; mas, uma vez conseguida essa familiaridade, o conjunto das armas imaginárias poderá ser utilizado com a mesma eficácia.

Dessa forma, poderemos eventualmente trabalhar no recinto de uma catedral ou num campo aberto com intenções mágicas, e desenvolver uma magia tão poderosa quanto em nosso templo particular (ou talvez até mais), sem que os transeuntes percebam qualquer coisa, satisfazendo assim o antigo provérbio da magia:

Querer, Saber, Ousar, Calar.

A esfera mágica

Esse auxiliar para a meditação possui muitas ramificações simbólicas, como poderá descobrir por si mesma qualquer pessoa que se decida a usá‑lo. A esfera pode ser feita em cartolina, na qual recortamos dois círculos e dois semicírculos, como na Fig. 1. Depois colorimos ambos os lados da cartolina, conforme as instruções, e cortamos nas linhas cheias.

Encaixe os círculos 1 e 2 mediante a fenda horizontal que chega até o centro. Depois encaixe os semicírculos do círculo 3 nas partes superior e inferior do círculo 2. Com uma execução perfeita, teremos um quadrante amarelo, um quadrante vermelho, um quadrante azul e um quadrante verde.

Imagine que o círculo 1 seja o chão do templo físico, ou o círculo mágico no soalho. O círculo 2 pode ser equacionado em termos de simbolismo com as colunas que se encontram ao seu lado enquando você está no centro ‑ elas estão simbolicamente estendidas ao infinito, encontrando‑se em cima e embaixo de você para formar o círculo 2. Os cabalistas podem considerar o ponto no alto como Kether, o ponto abaixo como Malkuth e o ponto central como Tifereth. O círculo 3 representa os planos interior e exterior (a leste e a oeste das colunas do círculo 2), e também os mundos superior e inferior, ou consciente e subconsciente. A meditação poderá trazer ainda mais significados, especialmente relativos aos primeiros capítulos da Doutrina cósmica, de Dion Fortune.

0 cubo mágico

É uma construção *similar à anterior, apenas que se trata de um cubo ao invés de uma esfera. Poderíamos dizer que representa o templo ideal. Os pormenores da construção estão na Fig. 2, em que as linhas pontilhadas indicam as dobras na cartolina, que podem ser dobras para fora ou para dentro. As cores são iguais em ambos os lados, em cada parte do diagrama. Depois de recortada e dobrada, a cartolina se transforma num templo cúbico com quatro quadrantes elementares, cada um com a forma de um altar ideal, o cubo duplo.

Também aqui a meditação poderá revelar mais.

Construção das colunas

A forma mais simples de construir as colunas é arranjar dois caibros de madeira, lisos, de 10 X 10 cm, com um comprimento de 1,80 m. Estes podem ser colocados em bases de metal, para mantê‑los de pé, e uma roda velha, comprada num ferro‑velho, pode servir muito bem para isso. A esfera no topo pode ser uma bola de borracha, colada ou enfiada num prego. Toda a peça deve ser pintada de preto ou prata. Se precisarmos dependurar símbolos nas colunas (como a espada, ou a vara, etc.), poderemos colocar pequenos ganchos ou pregos, que não serão muito visíveis.

Algumas pessoas gostam de colunas circulares, mas estas são problemáticas de fazer, a não ser que você consiga encontrar tubos ou bastões de um diâmetro suficientemente largo, e em material que não madeira. Se você quiser as colunas redondas em madeira, esta deverá ser torneada (e provavelmente em seções), ou, então, aplainada à mão e depois lixada.

O "nemyss"

Trata‑se de uma cobertura ritual para a cabeça, muito simples e prática. Experimentando, você poderá conseguir as melhores proporções para seu uso, com tecidos de várias espessuras. Uma fazenda grossa ficará rígida e com a aparência da cobertura para cabeça de algum antigo deus egípcio. Já um material mais leve terá uma aparência diferente, mas também eficiente.
A borda, com fitas ou rendas, é colocada na testa, e as fitas ou rendas são amarradas atrás. O nemyss pode ser ajeitado a gosto.

Vestimenta



A vestimenta mais simples, que pode ser facilmente confeccionada até mesmo por um principiante, é a túnica, que consiste num corte de tecido com um buraco no centro, para a cabeça. A túnica convencional do mago é um pouco mais trabalhada. Os lados são costurados, e tem mangas. Tradicionalmente as mangas são largas, e se abrem ainda mais sobre os pulsos, dando à peça uma forma que lembra a letra grega tau. Se você deseja respeitar essa tradição, não faça mangas muito compridas, porque o manuseio de velas acesas e de outros objetos rituais poderia se tomar perigoso!

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