O MITO DE HEFESTO E A MITOLOGIA GREGA
Por Monte Cristo SI

Ser instruído é reconhecer que o conhecimento original e verdadeiro extrapola os limites de nosso circulo e transpõe as paredes mais herméticas. O texto a seguir é a transcrição de uma narrativa mitológica Grega. No seu particular contexto e simbolismo apresenta leis e conhecimentos muito familiares aos Martinistas.

Eram freqüentes e violentas as disputas no Olimpo; mas, naquele dia, quando os deuses se sentaram à mesa, surgiu uma querela muito mais forte que as de hábito. Desde o seu nascimento, Hefesto, o filho de Zeus e de Hera, servia a bebida à assembléia divina durante as refeições. Deus franzino e disforme, ele provocava riso quando caminhava com suas pernas finas, o corpo encurvado e desproporcionado em relação ao rosto forte. Os outros deuses costumavam caçoar gentilmente dele, mas, naquele dia, Hera, de mau humor, aproveitou a entrada do filho para atacar Zeus e censurá-lo por ter gerado um filho doente. A disputa logo se exacerbou e Zeus, furioso, deu uma fantástica surra em Hera para fazê-la calar-se. Os deuses não se manifestaram, exceto Hefesto, que, para defender a mãe, jogou na cabeça do rei do Olimpo a sua ânfora repleta de néctar. O silêncio então se abateu sobre a assembléia. Surpreso com tanta audácia, Zeus não reagiu de imediato; depois pegou o filho pelo pé girou-o em torno da cabeça e precipitou-o do alto do Olimpo .

A queda de Hefesto durou um dia e uma noite. Ele acabou por cair no mar, nas proximidades de uma ilha verde. As náiades logo preveniram Tétis, que repousava em sua gruta. A boa deusa marinha decidiu recolher o pequeno e fraco deus e ensinar-lhe a arte dos metais. Ela o levou a uma forja onde Hefesto encontrou à sua disposição os sete metais dos sete planetas e inúmeras pedras preciosas, cada uma mais bela que a outra. O deus começou a trabalhar e , ao final de nove anos, tornou-se um mestre hábil e fazia maravilhas. Ele não guardava uma nítida memória da sua vida anterior , pois o rio que passava diante da gruta em que se encontrava a forja carregava consigo as lembranças . Mas Hefesto, que antes era sempre alegre, mudara, tornando-se resmungão e irritadiço. Um dia, zangou-se com a obra que realizava: um touro para Minos. Ele nunca conseguia dar-lhe a forma desejada. Com o martelo, tomado de cólera, estilhaçou um rubi em mil pedaços diante de Tétis. Depois envergonhado do gesto, recolheu as menores partículas da pedra e fez com ela um broche esplêndido que prendeu na túnica da nereida Tétis.

Ora, logo depois Tétis foi obrigada a encontrar Hera, que, pasma de admiração diante da jóia, perguntou-lhe quem a fizera. Tétis acabou por confessar que fora Hefesto. A partir daí, Hera fixou-se na idéia de restituir ao Olimpo aquele filho que ela subestimara, aquele notável ferreiro. Isso não foi fácil, pois Hefesto, ao afastar-se da gruta e do seu rio, recuperava a memória, não sendo das mais agradáveis a lembrança que Hera nele deixara; a mãe não o tinha defendido diante de Zeus. Contudo, cedeu ao seu capricho. Antes de deixá-lo, Tétis entregou-lhe uma corda brilhante e fina, que se enrolou em torno dos seus rins. Era um símbolo da sua condição de mágico.

Hera mandou construir no Olimpo uma imensa forja, dotada de vinte foles funcionando sem parar. Logo para atender aos pedidos dos deuses, de objetos soberbos e delicados, Hefesto não parou mais de trabalhar. Mas, trabalhando na forja, ele ruminava sua cólera e chegou a recriminar a mãe por não amá-lo com ternura. Esta foi anunciar-lhe que ele desposaria Cáris ( a graça) e enfureceu-se ao ouvir suas críticas. Hefesto desatou então a corda dos rins, prendeu a mãe em seu trono e voltou a trabalhar.

Ouvindo os gritos de Hera, os deuses acorreram, mas nenhum foi capaz de desatar os nós mágicos. Precisaram suplicar ao ferreiro que, mais calmo, restituiu com um gesto a liberdade à mãe. A corda voltou a se enrolar em torno dos seus rins. Fora de si, Hera, por sua vez, jogou o filho do alto do Olimpo. Houve uma nova queda de um dia e uma noite, mas, desta vez, Hefesto esborrachou-se de encontro a uma ilha, Lemnos. Embora imortal, quebrara as pernas. Os habitantes da ilha cuidaram dele com devotamento, mas suas pernas ficaram tortas e ele passou a mancar. Deus generoso, cumulou de presentes os habitantes de Lemnos. Cáris foi encontra-se com ele na ilha e celebrou-se o casamento. O deus permaneceu na ilha e construiu ali uma forja , e um dia Tétis foi pedir-lhe que forjasse a armadura de seu filho, Aquiles, que deu origem a uma esplêndida descrição na Ilíada. Mais tarde, Zeus ordenará a Hefesto que despose Afrodite; ele deixará Cáris e Lemnos para retornar ao Olimpo e nele encontrar uma esposa não muito fiel.

Num resumo bastante simples , o importante no mito de Hefesto é o itinerário desse deus , expulso do Olimpo pelo pai, mais tarde pela mãe , teve em Tétis uma iniciadora material e imaterial lhe dando uma corda mágica ao qual prendia na cintura . Após tantas vicissitudes ao forjar o escudo de Aquiles , Hefesto dá uma imagem da beleza da terra e mostra àquele que deseja evoluir as alegrias e os riscos nela existentes.

Certamente encontraremos neste conto mitológico várias e várias mensagens simbólicas e esotéricas , entretanto estamos particularmente interessados nas que dizem respeito a jornada humana entre o seu estado primordial e o seu estado de exílio na terra.

Logo no início da narrativa observamos a dualidade representada por Zeus e Hera , o masculino e o feminino , e até certo ponto , os conflitos e as antíteses desta oposição são invariavelmente as colunas simbólicas do Martinismo, sendo dominado por ambas as colunas é a representação da humanidade em sua jornada pela floresta dos erros. Quando após a observação das diversidades e das vicissitudes da vida ele, precipitado por Zeus ao mundo material, alegoria bastante clara da queda do paraíso tão discutida e amplamente apresentada por Saint-Martin , Pasqualy e Papus . Outra alegoria bastante explicita está na afirmação que Hefesto não guardava nítida memória da sua vida anterior , pois o rio que passava à frente de sua gruta "carregava" consigo as lembrança ; Papus em seu livro "A Reencarnação" faz a seguinte afirmação : no momento da reencarnação o espírito é mergulhado no "rio do esquecimento" , rio astral e não físico , esta perda de memória é indispensável para evitar o suicídio na terra . Papus ilustrou uma verdade cósmica utilizando o mesmo símbolo empregado a milhares de anos atrás pela mitologia Grega!

O veículo da primeira "reintegração" de Hefesto ao Olimpo foi a resultante de seus conflitos, do conhecimento de seus limites, e finalmente da humildade , enfim da diversidade. Esta passagem está representada pela sua incapacidade de fundir o objeto de Minos. Na sua cólera em estilhaçar um rubi e a humildade em recompô-lo em um broche que foi admirado pela sua mãe Hera.

Antes porém , como recompensa e tributo, Tétis lhe apresenta o símbolo derradeiro de sua iniciação : a corda brilhante , laço que o unirá do material ao não material , o laço que une o estudante ao seu mestre. Este mesmo cordão tem também um outro significado , ele pode ser interpretado como o veículo da reencarnação , ou o envoltório plástico também chamado de cordão de prata , instrumento que ele mesmo voltará a utilizar como veiculo que o propiciou a segunda queda.

Nesta segunda queda ele encontra uma nova diversidade , diferente da primeira , ele é adorado e venerado pelos habitantes de Lemnos , porém novamente sua presença é ordenada no Olimpo e de novo há uma reintegração ao seu lugar de direito. Podemos chamar a este eterno movimento, o movimento pendular da vida , ou movimento eterno dos opostos.

A deformidade física de Hefesto , mostra simbolicamente o tributo que se pode pagar para se adquirir o conhecimento e o domínio da arte pura. A deficiência física e a feiúra são sinônimos da força vital que devemos procurar. A proximidade ao plano material nos leva a integrar feiura e beleza , luz e escuridão , paz e guerra entre outras tantas oposições. São estas diversidades que nos levam a inteligência prática. No sentido paraíso - inferno essa queda pode ser chamada de morte , já no sentido inverso , pode ser chamada de vida ou harmonia e integração ao todo.

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